Dreamworks
A personagem Fiona repete os passos de Trinity e chuta os vilões em câmera lenta Dreamworks

Influência de 'Matrix' é vista em paródias, homenagens e inspirações

Além de filmes que recriam cenas icônicas, com personagens desviando de objetos, impacto do filme permanece na vida das pessoas

Matheus Mans, Especial para o Estadão

09 de dezembro de 2021 | 05h00

Apesar dos filmes seguintes de Matrix ter abraçado mais os efeitos criados em computador e se afastado da originalidade da “bullet time”, não há outra discussão: até hoje, a cena de Keanu Reeves desviando de projéteis é um dos marcos do cinema mundial. Já em 1999, a cena foi replicada na comédia Gigolô por Acidente, quando Rob Schneider desvia em câmera lenta de objetos atirados pela amante. Em 2000, a sequência virou paródia, de novo, com uma cena inusitada de Todo Mundo em Pânico.

Depois disso, a “bullet time”, seja com referências ao momento que Neo desvia das balas ou que Trinity dá um chute no ar, ganharam a cultura pop. Ganharam inúmeras referências em Os Simpsons, mostraram Fiona lutando contra um bando de ladrões em Shrek, assim como mostraram as protagonistas de As Panteras Detonando, de 2003, atirando e desviando de balas com efeitos bem similares ao que foi visto quatro anos antes em Matrix.

Isso sem falar, claro, de cenas que não envolvem necessariamente ação e desvios emocionantes de tiros, mas que usam a técnica desbravada em um filme live-action pelas irmãs Wachowski. É o caso da cena de um casamento na série Sherlock, em que a câmera passeia pelos convidados celebrando a união, ou até mesmo a brincadeira visual de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, quando Mercúrio entra no modo de velocidade acelerada.

No entanto, vale dizer que a influência dessas cenas vai para além das telas. No último domingo, 9, durante o painel da CCXP Worlds 21, Reeves admitiu que foi a “bullet time” que o convenceu a entrar no projeto de Matrix de vez. Dessa forma, sem a cena, Keanu Reeves poderia nem ter topado participar do longa-metragem e o filme das Wachowski, por outro lado, poderia não ter feito tanto barulho quanto fez na época de seu lançamento.

“Quando me encontrei [com a Lilly e Lana Wachowski], elas tinham um fólio com a arte de Matrix. Tinham o conceito de novo tipo de plano visual para o cinema, que acabou se chamando ‘bullet time’”, conta Keanu, relembrando o motivo de ter aceitado o projeto. “O que me fez saber que [o filme] seria diferente foi ver os ‘storyboards’”, completa Jada Pinkett Smith, atriz da franquia. “Quando vi os ‘storyboards’, pensei: ‘meu Deus, isso é anime em live-action. Se conseguirem fazer isso, vai ser revolucionário. E conseguiram, foi isso que aconteceu”.

Questionado sobre a influência em seu trabalho como cineasta e especialista em efeitos especiais, Kapel Furman, cineasta brasileiro e especialista em efeitos especiais, vai direto ao ponto. “Infelizmente, não tenho orçamento para fazer algo semelhante”, diz, aos risos. “Serve como inspiração, não como referência. Mas, ainda assim, Matrix foi um impacto na minha vida de espectador. A gente sabia que precisava fazer algo tão bom quanto aquilo. Mas hoje, 22 anos depois, nem todo mundo conseguiu”.

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Mais de 20 anos depois, 'Matrix' ainda é referência nos cinemas

Longa-metragem de 1999 volta para os cinemas nesta quinta-feira, 9, remasterizado em IMAX

Matheus Mans, Especial para o Estadão

09 de dezembro de 2021 | 05h00

Neo, personagem interpretado por Keanu Reeves, está de frente para um outro homem engravatado, armado com um revólver. Há tensão no ar. Até que esta outra figura, desafiando o protagonista, dispara a arma. É neste momento que Neo, de sobretudo preto e óculos escuros, num passe de mágica, desvia das balas. Nós, como espectadores, acompanhamos tudo, de todos os ângulos. Vemos a bala esbarrando, tirando fiapo de Neo.

Essa cena é o momento mais marcante de Matrix, clássico da ficção científica que retorna aos cinemas nesta quinta-feira, 9. Cerca de 22 anos depois, a volta à tela grande acontece numa mistura de celebração com promoção. Afinal, por um lado, a reexibição do longa é uma forma de voltar a atenção do público para Matrix Resurrections, quarto filme da franquia que estreia no dia 22 de dezembro. Por outro, celebra a inventividade da produção.

Exibido agora em IMAX, tecnologia que potencializa som e imagem, há uma observação inicial de que a narrativa transborda para os dias de hoje. O mergulho de Neo, em um mundo dominado pelas máquinas, traz uma dor cada vez mais latente. Não é à toa que Reeves, durante painel na CCXP Worlds 21 no último domingo, 5, adiantou que o novo longa é “uma visão realmente moderna e atual acerca de todas as influências tecnológicas”.

Só que, mais do que isso, Matrix continua uma obra marcante em termos visuais, mesmo 22 anos depois de sua chegada às salas de cinema. Além de toda a visão futurista das diretoras Lilly e Lana Wachowski, que conseguiram pensar num mundo conectado quando a internet ainda engatinhava, elas também souberam trabalhar com efeitos digitais. Star Wars: A Ameaça Fantasma explorava o espaço, Matrix brincava com a nossa realidade.

Essa cena em que Neo desvia das balas em câmera lenta, com a visão do espectador rodando todo o corpo curvado de Keanu Reeves, mostrou que o céu era o limite para as criações visuais em tempos de digitalização das produções. Aquele momento, também por conta do visual marcante do personagem, se tornou referência atemporal e replicado, como homenagem ou cópia, por um punhado de séries, filmes e desenhos nas últimas décadas. 

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Como ‘Matrix’ revolucionou os efeitos especiais no cinema

‘Bullet time’, cena em que Keanu Reeves desvia de tiros, se tornou referência; saiba como foi feita

Matheus Mans, Especial para o Estadão

09 de dezembro de 2021 | 05h00

Apesar da história inventiva e de todas as provocações sobre o futuro de um mundo cada vez mais tecnológico, Matrix até hoje é conhecido por conta de uma sequência: o momento em que Neo, personagem de Keanu Reeves, desvia de disparos de um arma de fogo em câmera lenta.

Essa cena, histórica para os cinemas, se vale de uma técnica chamada “bullet time” -- algo que, apesar da inovação do filme, é tão antiga quanto a própria sétima arte. Afinal, para rodar a sequência, a equipe de Matrix organizou um círculo ao redor do personagem de Keanu Reeves. Nesse círculo, câmeras milimetricamente organizadas tiraram fotos sucessivas do ator sendo apoiado em cabos e desviando das balas. Tudo isso com um fundo verde-limão: o famoso chroma key.

Eram 120 câmeras tirando fotos sucessivas de Neo. Nos bastidores, uma simulação tridimensional gerada por computador ajudou a produção a organizar a configuração das câmeras com o foco correto e, com um laser, para evitar que apontassem o aparelho para o lugar errado. Era importante, também, tirar a cena no momento certo. Senão, haveria falhas de posicionamento. Foi assim que cobriram 100% do cenário, em todos ângulos.

“A ‘bullet time’ é uma técnica que já existe desde o século 19, antes da criação da câmera cinematográfica. Afinal, para criar a sensação de algo se movimentando, profissionais tiravam várias fotos em sequência e depois as exibiam uma seguida da outra. É o princípio do cinema”, contextualiza Kapel Furman, cineasta brasileiro por trás do filme Anhangá e especialista em efeitos especiais. “O que Matrix fez foi colocar isso em um outro patamar”.

Depois, na pós-produção, começaram a finalização. Primeiramente, adicionaram as imagens do telhado ao chroma key -- uma gravação feita com os atores, simulando a cena, antes da realização da “bullet time”. Também adicionaram balas e, com as imagens de uma câmera de filmagem auxiliar, complementaram imagens que não ficaram perfeitas em cena.

Por fim, criaram a ilusão de Neo se movimentando com esse conjunto de fotos reproduzido a uma velocidade de 12 mil quadros por segundo -- lembrando que um filme roda, geralmente, a 24 quadros por segundo. Já a oscilação de movimento é resultado do espaçamento das câmeras organizadas no semicírculo. Quanto mais separadas umas das outras, elas desaceleravam a cena. Mas quanto mais próximas, a cena acelerava.

No vídeo abaixo, é possível conferir com detalhes os bastidores da cena e como filmaram Keanu Reeves desviou dos projéteis.

“São, no mínimo, 24 câmeras, colocadas em uma posição que você quer sua cena. Só aí que elas disparam essas fotos em sequência”, continua Kapel. “O que torna o efeito caro é ter todas essas câmeras e, também, os disparadores para essas câmeras. Elas precisam disparar em velocidade precisa. Com isso, podemos dizer que a dificuldade da ‘bullet time’ é a execução técnica. Afinal, não é a tecnologia em si [que inova], mas a forma de usar”.

Apesar de ter ficado mais conhecida por conta da sequência de Neo desviando das balas, as “bullet times” foram usadas outras vezes no Matrix de 1999, como o chute de Trinity. 

Em Reloaded e Revolutions, a “bullet time” ganha complicações, assim como os desafios enfrentados por Neo na trama. A aceleração dessas sequências é triplicada e as criações em computador crescem -- são mil cenas criadas no digital em Reloaded, com 95% do filme contendo algum elemento digital. Esse desejo de aumentar o grau de dificuldade dos efeitos também encareceu o custo de produção. De acordo com números divulgados na época, US$ 100 milhões foram só para efeitos especiais dos dois últimos filmes. Um terço do custo.

No vídeo a seguir, mostrando os bastidores da produção, o técnico em efeitos especiais John Gaeta explica detalhes, em inglês, de como a cena e outras sequências de "bullet time" foram gravadas.

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