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'Infância' traz Fernanda Montenegro como figura central de uma família rica

Longa é dirigido pelo cineasta Domingos Oliveira

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

12 de setembro de 2015 | 03h00

Como ser memorialístico sem se tornar autocentrado? Domingos Oliveira dá uma resposta possível em Infância, seu novo longa-metragem. Certo, Rodriguinho (Raul Guaraná) é, sem dúvida, seu alter ego. A matriarca, dona Mocinha (Fernanda Montenegro), representa sua avó, e assim por diante. No entanto, e aí vai toda a diferença, existe em Infância tanto de reconstrução do passado efetivamente vivido quanto de invenção do autor. Quer dizer, o documento pessoal torna-se ficção. Mas, ao se tornar ficção, traz de volta um documento precioso - um modo de ser da classe alta carioca no início dos anos 1950. O espectador sente o clima de uma época. Seus gostos, seus gestos, sua verdade e sua hipocrisia. E também sua maneira de falar, amar, sentir e perceber o mundo. Verá que esse mundo é muito diferente, mas apresenta curiosas semelhanças com este no qual vivemos. 

Por exemplo, dona Mocinha é a matriarca viúva, que não cede um milímetro do seu poder familiar. Afinal, é a dona do dinheiro. Dona Mocinha (Fernanda, magnífica) faz questão de reunir a família em torno do rádio da sala, “para ouvir o Lacerda”. Ou seja, o então governador Carlos Lacerda, em sua campanha impenitente para depor o presidente Getúlio Vargas. O Brasil vive em plena crise e os golpistas de então rondam o Palácio do Catete, do qual Getúlio acabaria por sair em um caixão. Morto, sim, porém nos braços do povo, como não imaginavam seus adversários, Lacerda em primeiro lugar. A História prepara desfechos que escapam ao planejamento dos seus agentes. 

Esse som das ruas, e o das conspirações palacianas do momento, entra no casarão de dona Mocinha por meio das “ondas do rádio”, como então se dizia. Naquele tempo, o aparelho de rádio era um móvel suntuoso, que ocupava lugar de destaque na sala de visitas. Ouviam-se música e notícias, com a família reunida, como fazia questão a matriarca. 

Esse era o espaço exterior à família, que penetrava no espaço doméstico pela tecnologia disponível na época. No espaço interno, dominado pela velha senhora, gravita uma família problemática, como tantas outras. A mãe de Rodriguinho, Conceição (Priscila Rozembaum), é casada com Henrique (Paulo Betti), que administra os bens da família e sobre o qual pesam suspeitas de desonestidade. Há o tio Orlando, (Ricardo Kosovski), chegado aos derivados etílicos e sensível aos avanços de uma bela doméstica (Nanda Costa). Um estroina, que chega à meia-idade sem haver provado o duvidoso gosto do trabalho e dependente em tudo da mãe rica. Henrique também se mete em transações pouco claras, com o objetivo de aumentar o patrimônio da sogra, mas também, que diabo, garantir a sua parte e a de sua família. Assuntos de dinheiro, tão sensíveis e tão comuns em famílias bafejadas pelo patrimônio. 

Nesse meio familiar, Rodriguinho procura crescer, se enrabicha por uma menina e é obrigado a aguentar as brincadeiras pesadas de um primo chato. O priminho é chato também para o espectador, diga-se. 

O filme tem origem na peça teatral do próprio Domingos. Há quem critique o tom um tanto “stagy” do filme. Ou seja, levaria para a tela o selo de origem controlada do seu DNA teatral. Em especial pelo fato de ser todo filmado em locação única, o tal casarão carioca onde se reúne a família, onde vivem muitos desses familiares e sobre os quais reina dona Mocinha. 

Seria uma crítica até certo ponto válida, não fosse o fato de Domingos, como diretor de cinema, conhecer perfeitamente sua ferramenta de trabalho. Sabe onde coloca a câmera, sabe fazê-la trabalhar na linguagem específica do cinema. E sabe garantir o ritmo do relato, sem o que o filme se tornaria arrastado. Pelo contrário, a história flui de modo natural, em sua vertente memorialística, mesclando humor a certa melancolia. 

Para falar do elenco: Fernanda Montenegro brilha intensamente. O filme é dela, poderíamos dizer. Mas não se deve concluir que seja exclusivamente seu, porque há muitos outros pontos altos no elenco. Por exemplo, Paulo Betti como o genro, Henrique. Na medida certa entre o cômico e o patético, Henrique é aquele aproveitador frágil, tanto em busca de dinheiro como de reconhecimento. No fundo, vive de favor, como dona Mocinha não deixará de assinalar, de maneira bastante clara. Bastariam esses dois para fazer do elenco de Infância um ponto de grande destaque do filme. Mas há também Priscilia Rozembaum, dividida entre a fidelidade ao marido e à mãe. E Orlando, esse outro tipo tragicômico tão bem encarnado por Ricardo Kosovski. 

Infância se baseia, é claro, num texto bastante inspirado, não fosse Domingos um dos nossos autores mais cultos, um cineasta para quem a literatura é muito mais do que uma longínqua referência. Leitor de Dostoievski, Domingos vive a literatura. Está incorporada em sua maneira de sentir e ver o mundo. Nesse caso, o cinema se beneficia da cultura. A literatura não se sobrepõe ao cinema, mas a ele se soma. O que não significa sobrecarga de referências, mas a cultura presente abaixo da linha d’água, a sustentar o navio. 

 

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