Inéditos no cinema chegam às locadoras

De nada adiantou o prestígio dos astros Robin Williams e Pierce Brosnan, o James Bond. Nem a respeitabilidade, um tanto exagerada, que o ator Richard Attenborough goza como diretor. Um Sinal de Esperança chegou a ter seu trailer exibido em salas. Inédito nos cinemas, o filme de Peter Kassovitz (que deve parentesco com Mathieu, pois o diretor de O Ódio está no elenco) terminou sendo lançado diretamente em vídeo e já está nas locadoras. Foi a mesma trajetória de O Guerreiro da Paz. Inédito nos cinemas, o filme de Attenborough também foi lançado em vídeo e está nas locadoras. Neste caso, o lançamento é simultâneo em vídeo e DVD.Um Sinal de Esperança chama-se Jakob the Liar, no original. Robin Williams é Jacó, o mentiroso, e o filme não deixa de ter certa semelhança com A Vida É Bela, de Roberto Benigni, que também trata o holocausto com humor. O começo é ótimo. Williams, como Jacó, observa que os nazistas tiraram tudo dos judeus, menos o humor com que eles enfrentaram a guerra - pelo menos naquela fase em que a chamada solução final ainda não havia eliminado completamente o riso do coração dos judeus. Ele conta a piada. Hitler foi à cartomante para saber quanto tempo ia viver. Ela lhe disse que ele morreria num feriado judaico. Como você sabe?, pergunta o führer. A cartomante responde - qualquer data em que você morrer será feriado judeu.A vida no gueto é uma dificuldade só, até o momento em que Williams/Jacó tem de se apresentar ao oficial alemão encarregado da segurança dos prisioneiros. A história passa-se na Polônia ocupada. O gueto é o de Varsóvia. Ele encontra uma sala deserta e um rádio ligado. Ouve a informação de que os alemães estão travando encarniçados combates com os russos numa localidade próxima. Jacó cria então uma fantasia para alimentar o espírito de resistência no gueto. Simula a existência de um rádio imaginário e narra aos companheiros de infortúnio as histórias sobre os avanços dos aliados. Cria-se a esperança e, por isso, a história de Jacó, o mentiroso, ganhou no Brasil o título de Um Sinal de Esperança. Só que os nazistas descobrem a história do tal rádio, pensam que ele existe de verdade e...Robin Williams talvez seja mais uma personalidade do que um verdadeiro ator. Mas é indiscutível seu carisma. Ele carrega o filme com seu humor doce-amargo. Há uma garotinha judia desgarrada da mãe, que ele toma sob sua proteção. Há o médico judeu chamado a atender o próprio comandante do gueto e que prefere morrer a manter vivo o inimigo. São várias tramas, a maioria delas diluindo o potencial humano e dramático que o filme poderia, mas não chega a ter. Não que seja ruim. Termina bem e o final, os judeus partindo no trem nazista, as circunstâncias intervindo para mudar a história dão a Um Sinal de Esperança um alento que fica com o espectador, após a projeção.Ecologia - Mais do que em ficção, o filme transforma a realidade em fantasia. O Guerreiro da Paz mistura de novo realidade e ficção. Baseia-se numa história real, mas ela é devidamente ficcionalizada. Afinal, é assim que Hollywood funciona. Na capinha, o espectador encontra a informação - dos produtores de Dança com Lobos e do diretor de Gandhi. Richard Attenborough realmente fez o épico sobre Gandhi. Ganhou, entre outros, os Oscars de filme e direção e outro prêmio importante da academia ainda foi para o ator Ben Kingsley, no papel-título. Com seu sucesso de prestígio, Gandhi mais ou menos determinou o desenvolvimento futuro da carreira de Attenborough. Virou um diretor de biografias, escolhendo personagens sérios, aos quais dá um tratamento quase hagiográfico, como se fossem santos.Surgiu assim Um Grito de Liberdade, sobre o líder sul-africano Steve Biko, cuja luta contra o apartheid é vista pelo ângulo do jornalista inglês Donald Woods. O Guerreiro da Paz conta agora a história de Archibald Belaney, pioneiro da ecologia que denunciou, nos anos 30, a destruição da natureza selvagem. Causa certo estranhamento ver o ator Pierce Brosnan, cujo estilo de humor e de representação lhe permitem fazer um eficiente 007, empunhar o cocar e a machadinha em danças indígenas. Seu nome é Archie (de Archibald) Águia Cinzenta e a novidade, tratando-se de um filme de Attenborough, é que o personagem, desta vez, vive sob o signo da ambivalência.Belaney foi um farsante que assumiu para si mesmo uma identidade de índio (não era) para defender as tribos e reservas indígenas do Canadá. A verdade, descoberta por um jornalista, foi revelada somente após sua morte e, de certa maneira, lançou seu nome no esquecimento, do qual Attenborough tenta agora resgatá-lo. O filme acompanha Archie desde 1927, quando ele conhece uma bela índia da tribo Mohawk, Pony. Por meio da mulher o caçador liga-se aos animais que antes destruía e assume a defesa ecológica como ideologia de vida.Só boas intenções não bastam, mas esse talvez seja um filme menos ruim de Attenborough. Do chefe índio, Archie ouve a frase que encerra o sentido do filme - um homem deve ser aquilo que acredita ou gostaria de ser. Há uma construção dramática, acadêmica, mas eficiente, que leva a essa cena. Seu contraponto é o autodesmascaramento do herói, quando ele tira a roupa de índio e reafirma sua disposição de seguir lutando pelo que acredita ser correto. Pony é interpretada por Annie Galipeau, uma linda mulher, e o lançamento em DVD é enriquecido por notas sobre a produção e o elenco, making of e trailer, além das tradicionais seleção de cenas e de legendas. Nada disso foi suficiente para atrair a atenção do público. Situação curiosamente injusta, pois O Guerreiro da Paz, com todas as suas limitações, está longe de ser o pior filme de Attenborough. Está no mesmo plano do supervalorizado Gandhi. E então, por que não arriscar uma olhada?Um Sinal de Esperança (Jakob the Liar) - EUA, 199. Direção de Peter Kassovitz, com Robin Williams. Columbia.O Guerreiro da Paz - EUA, 1999. Direção de Richard Attenborough, com Pierce Brosnan. Europa.

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