Indiferença e paixão na falsa virada do milênio

Babilônia 2000, novo filme de Eduardo Coutinho, não é um documentário sobre um morro localizado no célebre bairro de Copacabana, Rio de Janeiro, ou sobre as favelas que lá existem, Chapéu Mangueira e Babilônia. Tampouco é sobre as pessoas que lá vivem, ou sobre a festa popular de réveillon mais disputada do País. Babilônia 2000 é um documentário sobre os diálogos que cinco equipes de cinema travaram com moradores dessas favelas durante o último dia de 1999 - erroneamente comemorado como o último do século.Valendo-se disso, a pergunta principal dessa conversa era "o que você espera do próximo século?", e assim a esperança acaba sendo o mote do filme. Não traduzida em mensagens, discursos ou otimismos baratos, mas refletida no cotidiano de uma pobreza que aprende a conviver simultaneamente com indiferença e paixão. Indiferença reveladora de conformismo e sofrimento, paixão que rompe em alegria e otimismo. Considerações captadas pela lente de Coutinho, que tecem impressionantes histórias de nascimentos, vidas e mortes.Jorge, Fátima, Djanira, People, Jenifer e outros entregam com prazer suas histórias. É a conclusão do exercício de paciência de Coutinho, da entrada cordial de sua câmera no dia-a-dia das pessoas, estendido às outras equipes que documentam partes distintas do morro. Depoimentos cuja sinceridade e espontaneidade mostram a marca autoral do cineasta, embora este tenha uma direção coletiva.O mais impressionante é saber que a criação artística de Coutinho é totalmente involuntária. "Eu não quero me expressar pelos meus filmes, mas acabo por me expressar. Meu problema simplesmente é criar um vazio em mim e ser preenchido por eles, e ponto final", diz o diretor. Não existem, então, preocupações com um progresso estético, mas sim uma evolução de idéias que culminam nesse preenchimento pessoal de Coutinho, abrindo os olhos de seu público. É inevitável nos condenarmos ao destino descartável quando refletimos sobre a essência dessa esperança motora de tantas gentes. E a pergunta sobre o que lhes resta é igualmente inevitável. Pois se o contentamento é pouco, a resistência é muita - única garantia de vida para o século 21.

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