Indicação de "Abril Despedaçado" levanta polêmica

A definição de uma política maistransparente para o mercado externo, marcada por uma participação abrangente e democrática. Essa proposta partiu de cineastas e produtores entrevistados pela reportagem, depois deoficializada a escolha de Abril Despedaçado, de Walter Salles, como o representante brasileiro na disputa por uma dascinco vagas do Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro, em 2002. Como a decisão não surpreendeu (o longa era apontadocomo favorito até pelos outros nove concorrentes), os diretoresesperam que, para os próximos anos, o processo de escolha sejadiferente."É preciso definir uma política específica nãoapenas para o Oscar como também para os principais festivaiseuropeus", defende Miguel Faria Jr., diretor de O Xangô deBaker Street. "Como há regras distintas, é preciso que acomissão seja pautada justamente por essas regras."A comissão que ontem escolheu Abril Despedaçadoera formada por cinco membros, entre jornalistas e cineastas,escolhidos pela secretaria do Audiovisual do Ministério daCultura, órgão responsável pela inscrição oficial: AndruchaWaddington, Helvécio Ratton, Gustavo Dahl, José Carlos Avelar eLuiz Carlos Merten. A discussão, que não apontou unanimidade,terminou quando todos decidiram se pautar pelas qualidades decada um dos participantes e não apenas pelas suas chances deficar entre os finalistas do Oscar. "Foi uma sábia decisão, quesó reforçou a confiança que todos tínhamos na idoneidade de cadaum dos jurados", comentou Faria. "Mas o processo deveria tersido mais aberto."Se não contestaram a ética da comissão nem a qualidadedo filme de Walter Salles, os cineastas criticaram o processo deescolha. "Eu insisto que havia um certo compromisso sentimentalde alguns membros da comissão com determinados filmes", afirmaLuís Bolognesi, roteirista de Bicho de Sete Cabeças,dirigido por sua mulher, Laís Bodanzky. "Por isso, para ospróximos anos, precisamos refletir melhor e promover um debatemais aberto sobre os critérios de escolha."Uma comissão com mais participantes, convidados dediversos pontos do País, é uma das soluções, segundo Bolognesi.A proposta é bem aceita entre os cineastas. "A seleção não podeser regionalizada, algo como um Fla x Flu ou um Corinthians xPalmeiras", observa Miguel Faria Jr. "Diante de uma decisãodessa importância, deveria haver um número mais representativode jurados, poderia ter mais gente da indústria do cinema",acrescenta Sérgio Block, que dividiu a direção de Tainá comTânia Lamarca.A pluralidade de opiniões permitiria ainda que seevitasse uma desatenção para filmes que alguns consideramextremamente localizados, como aconteceu com Netto Perde SuaAlma, de Beto Souza e Tabajara Ruas, uma produção gaúcha."Não desconfiei da comissão, mas também não gostei dopreconceito com que o Netto foi avaliado em algumas exibições noRio e em São Paulo, que o apontaram como bairrista", criticaSouza. "Apesar de ambientado no Rio Grande do Sul, o filmetrata de uma história universal."A fixação de critérios, portanto, desponta como uma dasprincipais reinvidicações dos cineastas e produtores. A primeira mais urgente e já apontada por Miguel Faria Jr., é a deestabelecer a forma de avaliação específica para cadacompetição. "O Oscar é uma operação mercadológica", afirmou ocineasta Gustavo Dahl, tão logo a comissão divulgou sua escolha."É claro que o prestígio do Walter Salles influiu, mas o quecontou para a nossa decisão foi a qualidade do filme."Responder aos critérios apontados pela Academia de Artese Ciências Cinematográficas de Hollywood, porém, é consideradauma justa medida. "Há uma certa lógica em se pensar que existammais chances de vitória para um filme que trate do Brasil rural,realidade que os americanos conhecem mais", ponderou CarlosGerbase, diretor de Tolerância. "Isso não quer dizer queAbril Despedaçado seja o melhor filme do ano", pondera oprodutor Luíz Carlos Barreto. "Mas a fama internacional doWalter, a qualidade dos filmes dele e a participação da Miramaxna distribuição também influem."Disputa - Tais características, aliás, são a grande armada carreira de Abril Despedaçado a partir de agora. Osrealizadores sabem do potencial da Miramax, que comprou, por US$4 milhões, os direitos de distribuição intemacional (com exceçãoda França e Suíça) - o mesmo estúdio cuidou, no ano passado, dacarreira americana de A Vida É Bela e O Tigre e oDragão. O detalhe é que a Miramax vai distribuir também osprincipais rivais do brasileiro, o italiano O Quarto doFilho, de Nani Moretti, e O Fabuloso Destino de AmeliePoulain, de Jean-Pierre Jeunet. "Assim, nossa meta agora éconvencer os executivos da Miramax a dedicar igual atenção aoAbril", declara Maurício Andrade Ramos, produtor associado dofilme de Walter Salles.A meta é executar um poderoso trabalho mercadológico queculmine com a divulgação do longa, no dia 12 de fevereiro, entreos cinco finalistas na categoria de melhor filme estrangeiro. Adisputa não será fácil, o que é reconhecido pelo próprio WalterSalles, que estava em Los Angeles e de onde divulgou uma nota,antes de tirar dez dias de férias: "Não vai ser um percursofácil, porque a competição do ano que vem promete ser tão oumais acirrada que em 1999", escreveu, lembrando das indicaçõespara melhor filme estrangeiro e melhor atriz (FernandaMontenegro) recebidas por Central do Brasil.O caminho do filme já está traçado. No dia 27, porexemplo, Abril Despedaçado será projetado no programa Galaof the Year, promovido pelo American Film Institut para membrosda Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. No Brasil, aestréia nacional deverá acontecer em uma data próxima a 12 defevereiro, quando serão anunciados os cinco finalistas. Apenas acidade de Salvador teve a possibilidade de assistir ao filme -foi lá que o longa estreou no último dia 19, em apenas uma sala,e ficou sete dias em cartaz, requisito básico para poder secandidatar ao Oscar. "Uma indicação certamente vai alavancarsua distribuição", reconhece Andrade Ramos, esperançoso de otema despertar atenção dos americanos.Abril Despedaçado é uma adaptação do livro homônimodo autor albanês Ismail Kadaré e conta a guerra das famíliasBreve e Ferreira, que se matam uns aos outros por cobranças dedívidas de sangue. O livro teve duas outras adaptações, mas abrasileira é a única que agradou ao escritor. "Vamos usar seuselogios como promoção", disse Ramos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.