Indicação ao Oscar revive curtas-metragens

O Brasil tem tradição no cinema de curta-metragem. O formato longo pode ser o mais celebrado, mas, como todo mundo sabe, muitas vezes filmes de poucos minutos dizem mais do que épicos de quatro horas e meia. Assim, tamanho não sendo documento, fazem parte da melhor história do cinema nacional filmes como Viramundo, de Geraldo Sarno, A Velha a Fiar, de Humberto Mauro, Ilha das Flores, de Jorge Furtado, Arraial do Cabo, de Paulo César Saraceni, Mato Eles?, de Sérgio Bianchi, Maioria Absoluta, de Leon Hirszman, O Circo, de Arnaldo Jabor, e Memórias do Cangaço, de Paulo Gil Soares - para ficar apenas em alguns dos títulos mais notáveis. Muitas vezes o curta abriu caminhos estéticos com mais competência e facilidade do que o longa, o que é explicável, sendo mais barato, menos dependente do mercado e portanto, em tese, mais permeável à experimentação. Mais livre, numa palavra. Por exemplo, com A Velha a Fiar, Mauro torna-se um precursor do cinema ágil, do tipo videoclipe, enlaçando como mestre música e tema no mesmo tecido narrativo. Ilha das Flores deu um Urso de Prata em Berlim a Jorge Furtado, mas, acima de tudo, tornou-se um dos filmes mais seminais da história recente do cinema brasileiro. Sua capacidade de ligar idéias e imagens por justaposição, até que formem um conceito maior - que expressa a surrealista distribuição de renda do País - é nada menos que admirável. No começo dos anos 90, o desmanche cultural promovido pelo governo Collor praticamente desarticulou a produção cinematográfica. Com os longas-metragens ausentes, coube a curtas como Rota ABC, de Francisco César Filho, ou PR-Kadeia e Extingüe!, de Eduardo Caron, mostrar que ainda se fazia cinema de qualidade no Brasil. Não faltaram prêmios nem reconhecimento internacional ao esforço dos curta-metragistas. Há o Urso de Prata em Berlim a Jorge Furtado, o prêmio em Cannes para Meow, de Marcos Magalhães, o recente troféu em Havana a BMW Vermelho, de Reynaldo Pinheiro e Edu Ramos, as participações de De Janela Pro Cinema, de Quiá Rodrigues, Amassa que Elas Gostam, de Fernando Coster, e Três Minutos, de Ana Luiza Azevedo, em festivais como Cannes e Dresden, etc. No entanto, nunca se falou tanto em curtas-metragens, ou pelo menos em um curta-metragem em particular, como ultimamente. O motivo, como se sabe, é a indicação de Uma História de Futebol, de Paulo Machline, ao Oscar da categoria. Vale frisar: Machline ainda não ganhou nada - vai disputar a estatueta com outros quatro concorrentes.Seu trabalho já tinha sido premiado em diversos festivais, incluindo o de Nova York (troféu que justamente tornou possível sua candidatura ao prêmio da Academia), mas pouco ou nada se havia falado ou escrito a respeito. De repente, não mais que de repente, descobriu-se o óbvio. Uma História de Futebol, considerado um tanto ingênuo por parte da crítica, tem algumas qualidades bem evidentes. Como a esta altura do campeonato todo mundo deve saber, a tal "história de futebol" é uma das melhores do mundo, simplesmente porque se trata da história de Pelé. A trajetória do menino pobre, um prodígio com a bola nos pés, é contada em seu início, quando o garoto brilhava apenas nos campinhos do interior. Haveria muito o que se falar sobre o Pelé real e sua importância no imaginário de um povo de auto-imagem cronicamente negativa. Mas nem é o caso, mesmo porque Machline não entra no mérito da questão. Basta-lhe lembrar a gênese do futuro mestre, de suas jogadas de gênio em embrião, contada pelo depoimento de um amigo, em tom nostálgico. Todas essas virtudes do filme tornaram-se repentinamente evidentes porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas decidiu que Uma História de Futebol merece figurar entre os cinco finalistas ao seu prêmio máximo. A ocasião seria propícia para algumas reflexões. Não é de hoje que o reconhecimento local parece dependente da aceitação no exterior, sintoma de insegurança do brasileiro a respeito da qualidade daquilo que ele mesmo produz. Não se trata de fenômeno novo. Quando Anselmo Duarte ganhou a Palma de Ouro em Cannes com O Pagador de Promessas foi recebido no porto de Santos como se trouxesse a Copa do Mundo na bagagem. Ninguém dera muita bola para o filme quando lançado por aqui. Aliás, o clima de decisão de Copa se repete a cada vez que o Brasil chega à "final" do Oscar, o que aconteceu nos últimos anos com O Quatrilho, O que É Isso, Companheiro? e Central do Brasil. Mas de que adianta constatar o óbvio, quando essa característica dependente parece ser um estágio, talvez temporário, talvez permanente, da cultura brasileira? Melhor aproveitar o momento em benefício do próprio curta-metragem. Se é tão importante assim quando vai ao Oscar, por que não apoiá-lo de maneira mais consistente e em tempo integral? E cuidando não apenas de sua produção, mas de um crônico problema do formato que é a exibição? Praticamente expulso das salas de cinema, o curta só consegue seu espaço de exibição em festivais, algumas salas do "circuito de arte", como os Espaços Unibanco, ou em raras emissoras de TV, como a paulista Cultura, ou a gaúcha RBS. Valeria a pena apostar mais no formato. Afinal, numa época como a atual, de conservadorismo quase unânime no longa-metragem, são alguns curtas recentes, como Outros, de Gustavo Spolidoro, ou Sinistro, de René Sampaio, que sabem privilegiar a ousadia e a invenção - fatores sem os quais o cinema não respira e perde seu sentido artístico.

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