'Incrível como o Marrocos tem infra-estrutura', diz Ridley Scott

Em entrevista exclusiva, diretor fala de Rede de Mentiras e conclui: 'até que me saí bem nestes anos, não?'

Entrevista com

Flavia Guerra, de O Estado de S.Paulo,

08 de novembro de 2027 | 02h56

Há alguma semanas, quando conversou com o Estado, Ridley Scott não escondia a empolgação, e a admiração, ao falar da 'Hollywood da África' , ou seja, o Marrocos. Foi no país, uma espécie de porta de entrada do mundo islâmico, que o diretor americano rodou nada menos que Gladiador, Falcão Negro em Perigo, Kingdom of Heaven, e agora Rede de Mentiras. "É incrível como o Marrocos tem infra-estrutura, paisagens magníficas e visão de mercado. Praticamente quase todos os filmes que se passam no Oriente Médio são rodados no país. Você tem de visitar um dia", contava ele. Sugestão aceita. Veja também:Leonardo DiCaprio fala sobre 'Rede de Mentiras' de Ridley ScottAssista ao trailer de 'Rede de Mentiras', de Ridley Scott   Em visita há uma semana ao estúdios da CLA em Ouarzazate, durante o Festival de Cinema de Marrakesh, encerrado no último domingo, cidade a sudoeste de Marrakesh, foi possível descobrir porque Ridley é forte candidato a 'cidadão honorário' da Hollywood da África. Ao entrar nos estúdios, a primeira visão é uma singela placa apontando a direção do set de Rede de Mentiras, filme que foi rodado no segundo semestre de 2007, justamente na mesma época em que ocorre o Festival de Cinema de Marrakesh. Leonardo DiCaprio, a estrela de Rede de Mentiras, não só fez questão de se hospedar num hotel local, o Berbere Hotel, como parou as filmagens para receber uma homenagem no Festival. Não é à toa que a 'eterna musa' de Scott, Sigourney Weaver, foi a homenageada da vez nesta edição do festival, e que Alien (um dos maiores sucessos de Scott) tenha sido exibido em praça pública para mais de 30 mil pessoas. "O Marrocos é notável. Além dos estúdios, o príncipe Moulay Rachid é cinéfilo dos bons. Ele e o Rei Mohammed VI entenderam que cinema é também um grande negócio", dizia o entusiasmado diretor. Como Marrocos é uma monarquia constitucional, Rachid é filho do falecido Rei Hassan II, que governou o país até 1999, e irmão do Rei Mohammed VI, que assumiu, então, o trono. Rachid é também presidente da Fundação do Festival de Marrakesh. A julgar por sua cinematografia, é fácil dizer que de política, Scott entende muito. E um tanto de diplomacia real se faz sempre necessária, mas o fato é que o Marrocos detém a maior infra-estrutura para abrigar cenas como as que Ridley Scott fez questão de registrar por vezes com até seis câmeras simultâneas. "Ridley quase me enlouqueceu. Principalmente em cenas que envolviam câmeras aéreas. Quando eu via, lá estava eu em pleno deserto marroquino, com seis canhões em minha direção. Não sabia de onde viria o tiro, mas o Ridley sabia controlar com maestria as câmeras, driblar a dificuldade de se filmar naquela imensidão árida e, ao mesmo tempo, me dirigir", contou DiCaprio. Scott admite que filmar com seis câmeras simultâneas faz parecer um tanto de exagero digno de épicos históricos, mas justifica: "Esta é uma história tão multifacetada que só mesmo filmando em vários ângulos seria possível contá-la com o máximo de verdade que o cinema permite." A Rede  A história em questão é a de Roger Ferris, agente da CIA, infiltrado em uma rede de ações terroristas em Amã, capital da Jordânia. Sua missão é trabalhar com agentes locais e caçar um líder da Al-Qaeda que planeja atacar os Estados Unidos. Enquanto aprende que para sobreviver nesta rede de mentiras, o melhor que pode fazer é sempre dizer a verdade a seu principal aliado Hani Salaam (um irreconhecível Mark Strong, que atualmente vive o novo vilão do novo Sherlock Holmes de Guy Ritchie), tem de se reportar a seu superior Ed Hoffman (Russel Crowe) por celular. Entre intrigas, atentados cinematográficos e cenas de tortura dignas de entrar para a antologia do cinema, Ferris acaba se apaixonando por uma enfermeira jordã-iraniana que trabalha como voluntária em Amã e descobre que nem sempre seus inimigos são tão previsíveis quanto pensa. "Em tempos que a informação que nos chega sempre é filtrada, principalmente nos Estados Unidos, ter acesso à verdade é o maior bem que temos. É disso que quero falar agora", explicou Scott, que precisou de mais de duas horas para 'desenvolver o assunto' na tela. Muito por isso, há quem tenha acusado o filme de ser um tédio sem fim. Mas DiCaprio não se convence do contrário. "Foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida. E muito real também. Conversei com vários ex-agentes da CIA no Oriente Médio para chegar o mais próximo do que seria trabalhar com eles. E tendo um chefe como Russel não foi nada fácil também", brinca o ator, que voltou a trabalhar com o Russel em questão, Russel Crowe, mais de dez anos depois de Rápida e Mortal (de Sam Raimi). "Foi especial ver o quanto os dois, mesmo anos sem dividir uma cena, têm uma química incrível. Sou um privilegiado por contar com eles", elogiou Scott. "Integração têm ele e o Russel. O nível de intimidade entre os dois era tamanho que havia horas que um murmurava ou só olhava para o outro e tudo estava já entendido. Eu e a equipe ficávamos totalmente sem entender", brinca DiCaprio. Questionado sobre o fato de sua parafernália ser influência direta de sua experiência como diretor de mais de 3 mil comerciais (frutos de seu trabalho na RSA, a produtora de filmes para publicidade que criou ha duas décadas e que ate hoje mantém co o irmão, Tony Scott), o diretor se sai bem: "Se for, melhor para mim. Foi com o dinheiro da publicidade que paguei muitas contas e consegui me financiar como diretor. Sem contar que nunca deixei de dirigir. E, quando olho para trás e vi que fiz filmes como Thelma&Louise, Alien, Falcão Negro em Perigo, Gladiador, eu penso: "Até que me saí bem', concorda?" Como não concordar?

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