'Inch’ Allah': um olhar estrangeiro sobre a eterna crise no Oriente Médio

Cinema da diretora Anaïs Barbeau busca o entendimento sabendo como ele é difícil

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de janeiro de 2014 | 19h10

Muita gente reclama da fotografia escura de Inch’ Allah, mas a par de ser um problema pontual – a projeção digital de algumas salas –, pode ser que se trate de sugestão proporcionada pelo tom sombrio do filme. O conflito palestino/israelense, a sempre explosiva situação do Oriente Médio, tem sido um tema frequente no cinema. Há pouco, tivemos Além da Fronteira, de Michael Mayer, que focava a questão do ponto de vista de um advogado israelense e seu parceiro palestino. Inch’ Allah retoma o assunto por meio de uma médica canadense como a diretora Anaïs Barbeau-Lavalette.

 

 

 

 

Ambas – a personagem e a autora – são de Quebec, e a protagonista, Evelyne Brochu, é médica das Nações Unidas. Como tal, mora em Jerusalém, mas trabalha num posto da ONU em Ramallah. Só isso já dá conta do mundo dividido em que se movimenta, e que Anaïs Barbeau, consciente de ser uma estrangeira, revela por meio de uma personagem de fora, como ele.

Evelyne não tem nenhum interesse, digamos, amoroso. Possui uma amiga, estrangeira como ela, com a qual sai para bares (e baladas) nas noites quentes de Jerusalém. Mas, na maior parte do tempo, Evelyne está tentando entender o complicado mundo à sua volta. Ela se interessa especialmente pelo caso de uma paciente palestina grávida – e a atriz Sabrina Ouzani, que faz o papel, é o destaque do elenco.

Seu marido está preso, e ela tem um irmão militante. “Essa não é a nossa guerra”, diz a amiga para Evelyne, quando sente que a médica está se envolvendo demasiadamente com as pessoas, ou com Sabrina. “Essa guerra é de todo mundo, não há neutralidade possível”, rebate o irmão da paciente. E esse é o mundo no qual a médica se joga de cabeça, para descobrir que você termina tomando partido, independentemente de querer.

Talvez Inch’ Allah seja soturno e deprimente, mas é que a diretora não tem ilusões. Anaïs Barbeau tem levado seu olhar de estrangeira pelo mundo, fazendo documentários – e ficções – em Honduras, na Argentina e sobre comunidades de não canadenses em seu país. Um cinema que busca o entendimento, sabendo como ele é difícil.

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