<i>Mundo Novo</i> faz crítica à xenofobia da direita italiana

Na fase final do Festival de Venezadeste ano, Mundo Novo, de Emanuele Crialese, chegou a serapontado como favorito ao Leão de Ouro. Não ganhou. Mas, mesmoassim, deixou uma belíssima impressão. O filme não é apenasoportuno - é, principalmente, muito bem construído. Oportuno porque toca no problema vital dos países daEuropa unificada - as atitudes (contraditórias) em relação àsondas migratórias que vêm dos países pobres em direção aos ricos Crialese procura lançar alguma luz sobre o presente olhandopara o passado. Nos primeiros anos do século 20, grandes massasde italianos decidiram emigrar, grande parte deles em direçãoaos Estados Unidos. Iam "fazer a América", como diziam. Querdizer, escapar da pobreza, localizada em especial no Sul do país e dirigir-se às terras da promissão, situadas no outro lado doAtlântico. O filme não é apenas oportuno, mas criativo do ponto devista formal. Crialese trabalha em dois registros. O documental,com ambientação em paisagens da Sicília e personagens falandodialeto siciliano. Esse registro documental alterna com outro,diametralmente oposto e referido à imaginação dos personagens,que sonham com um país onde o dinheiro dá em árvores e frutastêm a dimensão de uma casa térrea. O fio da narrativa é puxado por uma personagemexcêntrica em relação a todos os outros - uma garota criada naInglaterra, sofisticada naquele ambiente rústico, e que precisade um casamento de conveniência para obter o visto americano.Charlotte Gainsbourg encarna essa figura misteriosa, que podeser uma aproveitadora, uma prostituta ou, ainda, apenas umavítima entre tantas naquele tempo desesperado. A base do procedimento de Crialese é a mesma de GianniAmelio em "Lamerica". Recordar o passado de emigração dositalianos para que eles reflitam sobre suas atitudes em relaçãoaos que vêm hoje à Itália em busca de algo melhor. São diretoreshumanistas, críticos em relação à xenofobia da direita italiana. Dupla face - Extraordinário e inquietante o novo filmedo coreano Kim Ki-Duk, Shi Gan, traduzido para o inglês comoTime. Tempo: é disso que se fala. E de como ele age sobre oscasais, mesmo que jovens. Na história, um desses casais, Seh-Heee Ji-Woo, começam a sentir o desgaste do relacionamento. Quandodescobre que o namorado pensa em outras mulheres enquanto fazamor, Seh-Hee decide mudar de aparência. A partir desse ponto, banal, o filme toma caminhoinusitado. Passando pela leitura mais óbvia do narcisismocontemporâneo, que busca no bisturi uma perfeição ilusória, KimKi-Duk vai mais fundo e passa a questionar a identidade própriado ser humano moderno. Ora, nesse mesmo mundo do narcisismo, oque passa a entrar em jogo é a imagem que se tem de si mesmo.Somos aquele a quem vemos refletido no espelho? E como os outrosnos vêem? A parábola é exemplar: se o antigo namorado seapaixona por um novo rosto, deve-se sentir júbilo ou ciúmes? E,pior, ciúmes em relação a si mesmo. Esse é o pensamento, emabismo, proposto por um cineasta sempre interessante, para dizero mínimo. Mundo Novo (2006, 112 min.) - Unibanco Arteplex 1. Rua FreiCaneca, 569, Shop. Frei Caneca, (11) 3472-2365. Hoje, 19h50

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