FILMES DO SERRO
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IMS faz retrospectiva da obra de Joaquim Pedro de Andrade

Em setembro completa-se 30 anos da morte do cineasta brasileiro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 06h00

Completam-se na próxima segunda, dia 10, 30 anos da morte de Joaquim Pedro de Andrade, uma das figuras emblemáticas do Cinema Novo e do cinema brasileiro em geral. A data será lembrada pelo IMS, que programou, desta quinta, 6, até dia 23, uma retrospectiva completa do autor.

Joaquim Pedro iniciou-se no curta, documentando grandes nomes da literatura brasileira – Manuel Bandeira em O Poeta do Castelo; Gilberto Freyre em O Mestre de Apicucos. Em 1960, um verdadeiro poema de filme, Couro de Gato, lhe garantiu projeção nacional e internacional. Contemplado pelo governo da França, foi estudar cinema em Paris. Couro de Gato terminou incluído na antologia Cinco Vezes Favela, junto a episódios de Cacá Diegues, Leon Hirszman, Miguel Borges e Marcos Farias. Muita gente considera Cinco Vezes Favela, lançado em 1962, o marco inaugural do Cinema Novo.

Nascido no Rio, onde se graduou em Física, Joaquim Pedro foi cineclubista de carteirinha. Minas era seu segundo lar. Essa influência mineira transparece fortemente em sua obra, que se divide entre uma vertente intimista e outra modernista. Em 1963, realizou seu primeiro longa, o documentário Garrincha, Alegria do Povo. Dois anos mais tarde, fundou a produtora Filmes do Serro, pela qual fez O Padre e a Moça, com Paulo José e Helena Ignez, baseado no poema Negro Amor de Rendas Brancas, de Carlos Drummond de Andrade. Magnificamente fotografado em preto e branco por seu parceiro, Mário Carneiro, é impregnado pela mineiridade que também alimenta Os Inconfidentes. Para sua versão da Inconfidência Mineira, Joaquim Pedro e Eduardo Escorel, que coassina o roteiro com ele, basearam-se nos Autos das Devassa, de Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa e Alvarenga Peixoto, e no Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles.

Contemporâneo de Independência ou Morte!, de Carlos Coimbra, que a ditadura militar, a despeito do diretor, transformara em emblema das comemorações do Sesquicentenário da Independência, Os Inconfidentes virou, num processo de polarização, o filme antioficial por excelência sobre uma tentativa anterior para libertar o Brasil, e na qual o herói termina, autofagicamente, devorado pela nação. Couro de Gato, O Padre e a Moça, Os Inconfidentes – o Joaquim mineiro. Com Macunaíma, de 1969, o cineasta adere ao banquete do modernismo – Tupy or Not Tupi. O filme transforma-se num grande sucesso de público, celebrando, enfim, o casamento do Cinema Novo com o público.

Erigido em tropicalista, Joaquim Pedro realiza o delicioso episódio Vereda Tropical, de Contos Eróticos, antecipado por Guerra Conjugal. Em 1981, Joaquim realiza seu último longa, O Homem do Pau-Brasil, que desconcerta a crítica. O evento do IMS traz a obra completa do diretor – 14 filmes –, todos exibidos em versões restauradas em película. A programação inclui debates, com a participação de Eduardo Escorel, Luciana Corrêa de Araújo e Carlos Augusto Calil. E haverá o lançamento do livro O Imponderável Bento contra o Crioulo Voador, roteiro nunca filmado de Joaquim Pedro, publicado pela editora Todavia.

Calil, que já havia lançado uma primeira edição do roteiro, espera que a atual repercuta mais. “Roteiros não precisam necessariamente possuir qualidades literárias porque são ferramentas para a realização de filmes, mas O Imponderável Bento pode, sim, ser lido como obra literária, e é extraordinária. Espero que dessa vez o livro mereça uma atenção que infelizmente não teve no passado.” Calil também destaca que esse aniversário de morte também pode ser uma bela oportunidade para se reavaliar a obra do diretor. “Como professor na ECA, sempre revejo a obra do Joaquim com meus alunos. E o que mais impressiona é que as turmas passam, mas a obra do Joaquim permanece, e permanece por uma agudeza do olhar que faz dele um autor cada vez mais atual.”

Redescobrir Joaquim – Calil acha que quem vir hoje Guerra Conjugal vai descobrir uma obra que só cresceu com o tempo. “A crueldade do filme nos revela, e revela um Brasil que parece espelho da realidade, e olhe que o filme tem, quantos?, 44 anos.” Joaquim era tão sábio que Calil diz que, ao trair sua adaptação de Macunaíma – filtrando Mário de Andrade por Oswald –, o cineasta enriqueceu a obra e a tornou mais crítica e verdadeira. “Rever Joaquim é necessário”, garante Calil. “E é também um prazer.” Ler, ver, debater Joaquim Pedro de Andrade no IMS. Um grande – que vai ficar ainda maior.

RETROSPECTIVA JOAQUIM PEDRO DE ANDRADE. IMS. Av. Paulista, 2.424, 3371-4455. Abre 5ª (6), 19h (filme e debate). R$ 8 e R$ 4. Até 23/9

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