Imprevisível! Assim é o amor na obra de Woody Allen

Imprevisível! Assim é o amor na obra de Woody Allen

É o que diz o principal biógrafo do diretor, ao comentar seu filme 'Tudo Pode dar Certo'

29 de abril de 2010 | 16h57

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo

 

SÃO PAULO - O encontro entre dois tímidos. Foi assim na primeira vez em que se viram Woody Allen e Eric Lax. Um era jornalista de pouca experiência; outro, um cineasta talentoso, porém de fama restrita. O ano era 1971. Desde então, Lax e Allen se falam com a frequência a que se permitem apenas os amigos. Woody logo virou um diretor de repercussão mundial e Lax acabou sendo seu biógrafo mais acreditado. Seu Conversas com Woody Allen (Cosac Naify, 2008) tornou-se obra referencial. O novo filme de Allen, Tudo Pode dar Certo, estreia amanhã. Seu biógrafo chega a São Paulo para participar do II Congresso de Jornalismo Cultural, que tem início segunda-feira. Na própria segunda, Lax participa de uma mesa, com o jornalista Ruy Castro, que debate o tema A Formação do Biógrafo: história, jornalismo e vida real.

 

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Quais foram suas impressões sobre Woody Allen durante as entrevistas que fez com ele?

Minha primeira entrevista, em 1971, foi um completo desastre. Eu era um novato no ofício de escrever e encontrar com alguém que admirava me deixava nervoso; além disso, ele era muito tímido e tudo isso fazia uma combinação terrível. Sua resposta mais curta às minhas perguntas era "não", o que não teria problema nenhum se a mais longa não fossem "sim". Mas nós falamos outras vezes e o relacionamento ficou confortável. É sempre um prazer falar com ele. Ele é iluminado, fala como se escrevesse parágrafos completos e, em geral, é auto depreciativo. E, claro, pode ser muito divertido. Mas não conta piadas. O humor surge como parte natural da conversação.

 

Você já viu o novo Allen, Tudo Vai Dar Certo?

Achei muito divertido, uma meditação iluminada sobre a imprevisibilidade do amor. Eu acho que esse tema da aleatoriedade foi uma constante ao longo de toda a sua vida. E envelhecer é apenas um aborrecimento a mais nesse processo.

 

Por falar nisso, a presença do aleatório é também muito grande em Match Point, um dos melhores filmes de Allen.

Para mim, Match Point é o melhor filme de Allen até agora. É também um dos favoritos de Allen, um puro drama. Ele já havia feito algo nesse sentido em Crimes e Pecados. Vivemos em um universo indiferente, no qual um crime pode ficar impune, mas ele teve de suavizar tudo isso na parte mais centrada em seu personagem.

 

Vicky Cristina Barcelona é filme de exceção na obra de Allen?

A imprevisibilidade do amor é tema regular em sua na obra. Aqui temos um filme no qual os personagens se perguntam que tipo de amor gostariam de ter. Seguro, como o da personagem de Rebecca Hall (embora ela sempre mantenha o sentimento de "e se fosse diferente"), inseguro e portanto nunca satisfatório, como o de Scarlett Johansson), ou apaixonado e cheio de emoções perigosas como o dos personagens de Penélope Cruz e Javier Bardem.

 

Você vê grande diferença quando ele filma nos EUA ou na Europa, ou é o mesmo Allen qualquer que seja a locação e a produção?

É sempre o mesmo Allen. O que muda é a atenção com a cultura e o modo de ser do país onde ele filma. Mas suas histórias baseiam-se na emoção humana, independentemente do lugar onde ele as filma.

 

Quais são os seus favoritos entre os filmes de Allen?

Um Assaltante bem Trapalhão (alegre, uma comédia exuberante), Tiros na Broadway (é sobre o que faz um artista, e a diferença entre um artista e a obra), A Rosa Púrpura do Cairo (a vida de fantasia é fascinante mas estamos presos à realidade, que acaba por nos matar), Broadway Danny Rose (a virtude da lealdade), Match Point (se você não tem uma consciência para importuná-lo, pode praticar um homicídio, porque não existe um Deus para punir quando a polícia falha).

 

O que você pensa que podemos esperar dos próximos trabalhos de Allen?

Continuará a abordar seus temas: relacionamentos, comédias, o sentido da existência em universo regido pelo acaso. Ele o fará de maneira cada vez mais livre pois, como já disse que não pretende mais atuar, libertou-se do personagem que ele encarna tão bem e para o qual se obrigava a escrever seus filmes. Mas provavelmente ainda nos reserva algumas surpresas.

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