Imprensa escolhe seu melhor em Berlim: Ken Loach

Se o aplauso da imprensa especializada influenciar o júri da Berlinale, então Ken Loach já ganhou o Urso de Ouro deste ano. O diretor inglês foi muito aplaudido na coletiva que se seguiu à exibição de seu novo filme, Ae Fond Kiss, para jornalistas de todo o mundo. É um belíssimo filme, que traz algumas surpresas para os admiradores do grande diretor. Aliás, o último dia da competição foi marcado por surpresas, algumas boas, outras nem tanto. Dieter Kosslick, o diretor da Berlinale, deixou para os dois últimos dias os filmes dos grandes - Theo Angelopoulos, Ken Loach e Eric Rohmer. Os dois primeiros estão entre os favoritos da premiação que será anunciada no sábado. Rohmer, salvo alguma loucura do júri presidido pela atriz Frances McDormand, é carta fora do baralho.É curioso como Loach e Rohmer apresentaram o que não deixa de ser uma mudança de rumo, quase uma inversão de seus trabalhos anteriores. O matemático Rohmer é um cineasta que adora falar sobre o amor e sobre as banalidades e sutilezas docotidiano. Loach faz de cada filme um manifesto político para reafirmar sua posição de esquerda. Mudaram, pelo menos um pouco. Rohmer veio com outro filme atípico - outro porque A Inglesa e o Duque também o era - contando a história de um affair político na França dos anos 1930. Existe a trama de espionagem, a discussão política que ganha o primeriro plano, mas o amor está lá no fundo. Loach inverte a situação - coloca o amor em primeiro plano, transferindo a política para ofundo da cena.Um filme erótico de Ken Loach? Ae Fond Kiss conta a história de amor de um rapaz paquistanês e uma garota inglesa. Na cena em que os dois fazem amor pela primeira vez, a câmera mostra a dupla se desnudando e praticando sexo oral. É delicado, mas você pode imaginar que a história de amor não é tão simples. Ele está prometido pela família para uma garota do Paquistão, ela é professora numa escola católica e enfrenta o fundamentalismo do padre, que lhe cobra ´padrões de comportamento moral´.Rohmer conta a história de um agente triplo na França do Front Populaire. Fiodor é um ex-agente czarista que mantém perigosas relações com comunistas e nazistas. O cineasta discute as ideologias e acrescenta a essa investigação um debate sobre a própria natureza da arte. A mulher do agente é pintora. Pinta quadros acadêmicos que retratam a vida do povo. O marido e ela detestam a arte revolucionária de Picasso. Dizem que não entendem. Essa discussão sobre arte e política se constitui na essência do filme, mas Rohmer é melhor nos contos morais ou nos contos das quatro estações.Embora o festival só termine oficialmente no domingo, com a reprise de todos os filmes, a premiação ocorre neste sábado. Há bons filmes na disputa - os de Angelopoulos e Loach, claro, os do argentino Daniel Burman (El Abrazo Partido), do croata Vinko Bresan (Witnesses) e o da dinamarquesa Annette Dinesen (In Your Hands). Júris de festivais têm de ser consensuais e democráticos. Muitas vezes os filmes são premiados por meio de verdadeiras negociações. Vamos ver o que o júri da 54.ª edição do Festival de Berlim vai aprontar.Veja galeria de fotos

Agencia Estado,

13 de fevereiro de 2004 | 17h05

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