Imprensa conversa com diretores estrangeiros

Os entrevistados eram cinco mas boa parte da imprensa se empurrou para conversar principalmente com dois deles: o palestino Hany Abu-Assad, diretor de Paradise Now, e o alemão Marc Rothemund, de Uma Mulher Contra Hitler. Ambos concorrem ao Oscar de melhor filme estrangeiro e, assim como os outros candidatos, conversaram hoje com jornalistas do mundo inteiro.O motivo de tanto interesse é político. Paradise Now acompanha um dia de dois jovens palestinos que são designados para uma missão suicida como homens-bomba. Em um ano em que o Oscar é dominado por uma série de filmes sobre temas polêmicos, como o amor homossexual em O Segredo de Brokeback Mountain, o preconceito racial em Crash - No Limite e o assassinato de atletas israelenses na Olimpíada de 1972 em Munique, o filme de Abu-Assad toca em uma ferida eternamente aberta.?Compreendo que a comunidade judaica de todo o mundo esteja reclamando de meu filme, mas respeito o ponto de vista deles assim como espero ser respeitado o meu ponto de vista?, disse o diretor ao Estado. ?O mais importante é que se encontre o diálogo.? Sorridente, acenando para todas as câmeras e fazendo ironias (?É engraçado ser acompanhado aqui por seguranças, uma vez que, como palestino, sempre despertei desconfianças?), Abu-Assad foi mais diplomático e cuidadoso ao falar hoje que quando foi entrevistado pelo jornal israelense Yediot Ahronot.Segundo a agência de notícias Ansa, ele disse que Israel pratica o "verdadeiro terrorismo", e não os palestinos que cometem ataques suicidas. "Uma bomba humana não pode ser definida como um terrorista. É simplesmente um homem com uma bomba. Os atentados suicidas são uma reação ao terrorismo de vocês", disse o cineasta Abu-Assad na entrevista.Abu-Assad responde assim a um abaixo-assinado com mais de 30 mil assinaturas colhidas em Tel Aviv para que seu filme seja retirado do Oscar. O fato de Paradise Now ter sido premiado com um Globo de Ouro causou, ainda segundo a Ansa, a indignação de uma família de israelenses que perdeu seu filho, Asaf Zur, de 16 anos, há três anos em um atentado suicida cometido por palestinos em Haifa. A explosão do ônibus em que o adolescente estava matou 17 pessoas. Segundo o pai da vítima, Yossi Zur, aqueles que decidiram premiar o filme "devem ser vistos como colaboradores de futuros atentados suicidas?.Em Los Angeles, Abu-Assad foi prudente mas não menos incisivo nas respostas. Ele disse não querer fomentar a guerra, mas, como palestino, não pode viver subjugado. ?Meu filme traz sentimentos muito nobres do meu povo e isso não posso esconder.?Também disposto a apresentar a real disposição de seus compatriotas, o alemão Marc Rothemund contou ter percorrido diversos países durante um ano para divulgar Uma Mulher Contra Hitler. O longa conta a história de Sophie Scholl, integrante de um grupo alemão de resistência ao nazismo durante a 2.ª Guerra Mundial, o Rosa Branca, que acaba presa e decapitada por divulgar a idéia de que a civilização precisa prevalecer sobre a barbárie. ?Ainda hoje, as pessoas associam nazismo à Alemanha e acreditam que todo nazista era um assassino em potencial?, disse Rothemund. ?O que pretendi, com o filme, foi mostrar que, durante a guerra, houve pessoas que resistiram à política de Adolf Hitler, mas que são pouco lembradas?, comenta ele que, com a indicação para o Oscar, percebeu a eficiência de sua mensagem. O domínio de assuntos políticos é um sinal de maturidade do Oscar, acredita o sul-africano Gavin Hood, cujo filme Tsotsi também é concorrente. ?Claro que cinema tem de ser sinônimo de entretenimento, mas atualmente não podemos deixar que a platéia deixe a sala sem ter sido tocada?, afirmou Hood, cujo longa narra seis dias na vida de um traficante em Joanesburgo. ?O cinema tem de divertir as pessoas mas não pode deixar de ser um espelho da nossa sociedade atual.?

Agencia Estado,

03 de março de 2006 | 20h25

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.