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Implosão de estéticas na trama de ‘Doce Amianto’

O diretor Guto Parente encontra o tema ideal para seus excessos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2013 | 18h21

Num encontro com o repórter, durante a Semana dos Realizadores, no Rio, Guto Parente confessou-se feliz com a acolhida a Doce Amianto. O filme que estreia hoje integrou a seleção da Mostra Aurora em Tiradentes, em janeiro. Passa-se no meio do travestismo, contando a história de uma mulher – representada por um homem (o codiretor Uirá dos Reis) –, carente de afeto, que busca um parceiro que a aceite como é. Guto, do coletivo Alumbramento, de Fortaleza – os irmãos Pretti e os primos Parente –, tomou como um elogio o cumprimento de um colega cineasta, Eryk Rocha.

“Depois da sessão, o Eryk me abraçou me chamando de irmão e dizendo que eu havia soltado a franga.” A ‘viadagem’, com todo respeito, é estética. “Sempre quis fazer um filme com cores extravagantes e ângulos bizarros, jogando com as possibilidades de movimentação da câmera. Na Alumbramento, a gente gosta muito de experimentar, mas tem de ter uma base. E eu finalmente encontrei a história para dar vazão ao que pode parecer loucura, mas não é.”

Em Tiradentes, Doce Amianto já havia provocado desconforto. Ante reações positivas, até membros do júri rompiam o isolamento e perguntavam – “Mas você gostou mesmo? Jura?” É um filme que produz estranhamento. Entra no dia em que também estreia Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie. Não tem nada a ver, como em princípio também não tem com Tatuagem, de Hilton Lacerda. Mas são todos filmes que propõem (diferentes) representações do mundo gay e do travestismo.

Vamos logo aos fatos, para você não perder tempo – Doce Amianto tem uma cena de sexo hard. Os caras transaram de verdade. E embora noções como prostituição e espetáculo sejam associadas ao travestismo, Guto esclarece que a intenção foi sempre outra, mais intimista. “A gente nunca questionava se era um homem ou uma mulher. A questão do afeto tinha preferência sobre o gênero.” Em seus filmes solos, Guto Parente tem manifestado um interesse particular pelos aspectos plásticos do cinema. A luz, o quadro, a cor são elementos que o fascinam e são exacerbados em Doce Amianto.

O filme inspira-se no poema que Uirá dos Reis escreveu para um amigo que se suicidou. Só que houve, digamos, um deslocamento na passagem para a tela. Blanche, que seria o amigo morto, vira a fada madrinha de Amianto, a protagonista. Blanche invade os sonhos de Blanche, quando não a assombra, e tudo como forma de consolação. Pois Amianto sofre com suas angústias e o isolamento. É uma personagem instável e Guto concorda – o próprio filme desestabiliza-se, implodindo em estéticas (e gêneros).

Já havia esse excesso em Dizem Que os Cães Veem Coisas, mas aqui ele é mais orgânico na definição da personagem (e de sua história). A questão que se coloca é simples – Doce Amianto tira o público da sua zona de conforto. Nem Amianto nem a estética do filme são moldadas na conformidade. Mas o desespero, por momentos, é genuíno.

DOCE AMIANTO

Direção: (Brasil, Guto Parente e Uirá dos Reis

Gênero: Drama (2013, 70 minutos). Classificação: 16 anos. 

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