<i>Mais Estranho Que a Ficção</i>, um dos melhores da temporada

Vieram todos para a première mundial deMais Estranho Que a Ficção durante o Festival de Londres, emoutubro do ano passado - os atores Will Ferrell, Emma Thompson eDustin Hoffman, o roteirista Zach Helm. Bem - quase todos.Faltou, talvez, o principal, o homem que reuniu todos essestalentos para realizar um dos melhores filmes da atual safra doOscar. Marc Foster ficou em Los Angeles, envolvido na realizaçãode seu novo filme. Zach Helm é jovem, mas parece ainda mais jovem do que é.Você lhe dá 20 anos e não os 31 que estava fazendo. Ele explicaque o título vem de uma citação de Mark Twain - "A verdade émais estranha que a ficção, porque a ficção precisa desustentação para tornar suas possibilidades convincentes. Averdade, não." Tudo começou em 2001, quando Helm tinha 26 anos.Influenciado por tudo - "Ninguém mais consegue viver isolado naera da internet", ele diz. Helm misturou reality shows com OShow de Truman, O Show da Vida, de Peter Weir, e desenvolveuessa idéia insólita de um sujeito perseguido por uma voz que é ado narrador de sua vida. Sem saber direito como desenvolver suahistória, Helm levou-a à produtora Lindsay Duran. Das conversasentre ambos, surgiu a idéia de que o narrador deveria dizer aoherói, batizado como Harold Crick, que ele vai morrer. Foi assim que tudo começou, mas o desenvolvimento doroteiro foi mais complicado. Tomou anos de vida de Helm e,quando o diretor Marc Foster, de Em Busca da Terra do Nunca,sobre E.M. Barrie, o autor de Peter Pan, chegou, o projeto foiquase que integralmente reescrito. "Marc queria mudar, fazeralguma coisa cômica, mas que não fosse somente divertida. Queriaque também tivesse densidade emocional. Marc entendeu minhaproposta, que era a de contar a história de um sujeito quedescobre sua vida justamente no momento em que está paraperdê-la." Helm não tem problemas em admitir que teve váriasfontes de influências (e referências) e também que a produtora eo diretor foram fundamentais no roteiro. "Por mais coletiva queseja a criação, por mais que haja recriação, sinto que atingi umgrau muito interessante de originalidade e que terminei sendopessoal, escrevendo o roteiro que queria." Harold Crick, o personagem, não é apenas metódico. Levauma vida insípida, que se repete exatamente igual, todos os dias. Quando ele descobre o narrador, descobre também que épersonagem do novo livro que está sendo escrito pela renomadaKaren Eiffel. E mais - Karen, interpretada por Emma Thompson, éuma autora famosa por procurar maneiras bizarras de matar seuspersonagens. E ela ainda não decidiu como vai matar Harold.Desesperado, Will Ferrell, que faz Harold, busca ajuda de umapsiquiatra (Linda Hunt), que diagnostica o caso comoesquizofrenia. Numa cena memorável, ele lhe diz que não éesquizofrênico, apenas ouve vozes na sua cabeça. Linda o indicapara um professor de teoria literária. Entra em cena DustinHoffman, que lembrou, para o repórter, que já havia interpretadoum personagem parecido em Heart Huckabeers, de David O.Russell. Vem do professor a idéia de que, para mudar o enredo eser poupado, Harold precisa sensibilizar a escritora. De quemaneira? Por meio de um interesse romântico. A situação evoluipara este ponto em que Harold, cuja vida ordeira foicompletamente subvertida, está a ponto de perder tudo -inclusive o amor que, a duras penas, conquistou. O desfechocoloca um problema parecido com o do final de O Céu de Suely,de Karim Aïnouz. O que é, exatamente, um final feliz para umahistória dessas? O de Mais Estranho Que a Ficção parece umdesdobramento para a suave melancolia de Em Busca da Terra doNunca, o filme anterior de Marc Foster, que também já tratavados problemas da criação artística (e literária). Lindsay Doran havia sido produtora-executiva de Razão eSensibilidade, de Ang Lee, pelo qual Emma Thompson ganhou oOscar de melhor roteiro adaptado (do romance de Jane Austen). Aprópria Emma ironizou sobre sua escolha. "Não existiam muitasopções para fazer o papel. Lindsay e Marc precisavam de umaatriz capaz de fumar como uma chaminé e que fosse boa de digitar(e eu sou escritora, não se esqueça). Digamos que tambémprecisavam que ela tivesse um certo talento. Como preencho bemos dois primeiros requisitos, eles resolveram arriscar noterceiro." Emma não tem pudor de dizer que ficou morrendo deinveja de Zach Helm. "O roteiro dele foi o melhor que li em anos Gostaria de tê-lo escrito. É simples e, ao mesmo tempo,terrivelmente complexo. Qualquer escritor digno desse nome vaise perguntar - ?Por que não tive essa idéia antes?? Não há nadamelhor do que uma combinação de boas idéias com boas piadas." Ferrell deu um salto de qualidade, ultimamente, em suacarreira, participando de filmes como Os Produtores e Melindae Melinda, de Woody Allen. O palhaço que se vestia de duende emElf é capaz de vestir um terno bem cortado e fazer rir decoisas angustiosamente reais. Ferrell diz que Harold não temnada parecido com ele, mas também que consegue compreender a suasolidão e esse sentimento de ?deslocamento?, quando o herói temde brigar por sua vida, sabendo que é só um personagemvulnerável. "Conversando com Marc e Zach, chegamos à conclusãode que a melhor maneira de fazer Harold era retirando dele todasofisticação. Harold é humano, vulnerável. É um personagem dedrama solto numa comédia. É o sonho de qualquer ator." Não foifácil, ele admite. "Meu estilo de humor é direto, tanto físicoquanto verbal. Aqui, tenho de trabalhar na nuance, o que torna otrabalho sofisticado. Uma coisa que ajudou bastante foi asensacional direção de arte. O escritório, o apartamento, é tudotão perfeito que eu próprio me sentia como um personagem daquelaficção."O repórter viajou a convite da distribuidora SonyMais Estranho Que a Ficção (Stranger Than Fiction, EUA/ 2006,113 min.) - Comédia. Dir. Marc Forster. 10 anos. Cotação: Bom

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