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'I'm Your Woman' revisita o cinema de máfia pela ótica feminina

'Na televisão e no cinema, ou as mães são ausentes e terríveis ou são perfeitas', afirma a diretora Julia Hart ao 'Estadão'

Mariane Morisawa, Especial para o Estado

15 de dezembro de 2020 | 05h00

Apaixonada pelos dramas criminais da década de 1970, a diretora Julia Hart se lembra de algumas cenas que a marcaram em particular: o momento em que a porta se fecha na cara de Diane Keaton em O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola, ou a hora em que Tuesday Weld entra no carro em Profissão: Ladrão (1981), de Michael Mann. “Eu sempre ficava interessada no que acontecia com aquelas mulheres, pois esses filmes quase sempre focavam nos homens, e elas desapareciam em certo ponto”, disse Hart em entrevista ao Estadão, por telefone. 

Como disse a atriz Rachel Brosnahan, que interpreta a protagonista Jean, “elas somem quando o filme fica interessante”. Hart decidiu que queria contar uma história de uma dessas mulheres. “Eu queria mostrar não apenas o que ocorre com elas na trama, mas também sua vida emocional e interior, porque muitas vezes o cinema não explora o que elas pensam e sentem.”

Assim nasceu I’m Your Woman, que está no ar no Amazon Prime Video. O longa abre com a protagonista Jean (Brosnahan, de A Maravilhosa Sra. Maisel) metida num robe luxuoso, relaxando numa cadeira de praia no quintal de casa. Pouco depois, seu marido Eddie (Bill Heck) chega com um bebê – o casal tentara conceber, sem sucesso. Um momento mais e começa a corrida maluca para Jean. Eddie está metido com negócios escusos, e ela acaba sob proteção de Cal (Arinzé Kene) e sua mulher Teri (Marsha Stephanie Blake). 

Fixar a ação nos anos 1970 não foi só uma homenagem aos longas que viu quando estava crescendo. “É um período interessante para as mulheres e também para os personagens negros, como Cal e Teri”, disse a diretora Julia Hart. “Houve uma grande mudança naquela época, as mulheres começaram a exigir seus direitos, havia o movimento Black Power.”

Protagonistas mulheres

Não que Jean seja uma mulher empoderada. Ela é uma dona de casa, simplesmente, e nem muito boa. Não sabe nem fritar um ovo. “Eu acho que a indústria do entretenimento tem muita dificuldade de focar em protagonistas mulheres. Quando acontece, são mulheres já muito poderosas e muito bem-sucedidas”, disse Hart, que escreveu o roteiro com o marido, o produtor Jordan Horowitz – que ficou famoso mundialmente por anunciar que seu filme, La La Land – Cantando Estações, tinha na verdade perdido o Oscar de melhor produção para Moonlight – Sob a Luz do Luar, na cerimônia de 2017. 

“Eu acho que histórias pequenas, de mulheres ordinárias, são importantes de contar também, até porque representam um universo maior. Vemos filmes sobre homens comuns o tempo todo. Queria que as mulheres que não tiveram permissão ou a chance de acessarem sua força pudessem assistir e sentir que são importantes e têm voz própria”, continuou.

Jean vai aprendendo aos poucos a se empoderar e a encontrar seus talentos. “Queria que fosse um arco realista, interiorizado, sutil. Não que de repente ela saísse lutando contra os criminosos que a perseguem”, disse a diretora. Para Rachel Brosnahan, o filme é a exploração de um gênero familiar por uma lente claramente feminina. “Nós podemos estar com Jean, ver em tempo real seu crescimento, quadro a quadro. Acabamos com um retrato mais rico dessa mulher.”

A fuga desabalada da protagonista envolve também descobrir como ser mãe daquele bebê que ela não sabe de onde veio. Nada vem imediatamente ou naturalmente. “A maternidade é muito romantizada”, disse Hart. “Na televisão e no cinema, ou as mães são ausentes e terríveis ou são perfeitas. E eu como mãe estou mais interessada na complexidade da maternidade e como ela dá medo.” 

Ter um bebê no set, em cenas de drama e ação, foi uma tarefa daquelas para a cineasta. “É muito difícil, porque bebês não fazem o que você quer. Eles estão apenas vivendo suas vidas”, disse Hart que, como é de praxe, usou gêmeos. Ser mãe ajudou. “Eu estava acostumada com a imprevisibilidade.” Para Brosnahan, que não é mãe, foi um tremendo desafio como pessoa e atriz. “Aqueles bebês não estavam atuando, nem sabiam estar num filme. E nós tínhamos de permanecer ligados. Isso forçou elenco e equipe a estarem sempre presentes, vivendo cada momento com o bebê. Mas foi uma experiência e tanto e nos tornou melhores.”

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