'Il Divo', uma coreografia dos bastidores da política italiana

Filme do diretor Sorrentino será exibido em sessão de gala em Cannes nesta sexta-feira, 24

Flávia Guerra, especial para O Estado,

08 de maio de 2023 | 11h27

"Mas eu não sou cínico", limitou-se a dizer o senador italiano Giulio Andreotti depois de assistir a Il Divo na semana passada. A opinião seria só mais uma diante do segundo longa italiano exibido na noite de quinta-feira, 23, para a imprensa (e que tem sessão de gala nesta sexta-feira, 24) na mostra competitiva do 61° Festival de Cannes. Mas basta saber que Andreotti é o próprio Divo para entender que a questão é mais embaixo.  Veja também:Acompanhe a cobertura no blog do Merten   Teste seus conhecimentos sobre o Festival de Cannes Galeria de fotos do Festival de Cannes  Diretor de 'Che' quis dar uma história para as camisetasEnviada especial Flávia Guerra fala dos filmes e das celebridades em Cannes   Antes de comentar o impacto, e a ótima recepção que este belo filme do já considerado um dos novos mestres do cinema italiano atual (que, convenhamos, tem passado, assim como o país, por uma fase de crise criativa), é preciso relembrar quem, e por que, Andreotti é "o divo". Nascido em 1919, figura emblemática da política italiana, Andreotti é senador vitalício da Itália. Líder do Partido Democrata-Cristão, foi ministro dos negócios estrangeiros, ministro do Interior, das finanças e primeiro-ministro italiano por vários mandatos. Além de seu caráter peculiar, notável por destilar a razão cínica e a ironia como poucos, Andreotti ganhou fama fora do cenário italiano nos anos 90, quando foi protagonista de um escandaloso processo promovido pela justiça italiana.  Acusado de envolvimento com a máfia e de financiar ilegalmente partidos políticos, acabou sendo absolvido de todos os delitos em 1995. Apesar de "inocente", entrou para os autos como uma das figuras mais ambíguas e controversas da política italiana. Por sua integridade de caráter, parece não haver muitos que aceitam "por a mão no fogo". Um exemplo? Como disse a mãe do senador, frase que não por acaso abre o filme, "quando não se tem nada de positivo para se dizer de alguém, melhor não dizer nada."  Voltemos ao filme. Por estas e outras, em vez de dizer, o cineasta Paolo Sorrentino preferiu filmar. E o faz com maestria. Apesar de afirmar ao Estado que não entendeu muito bem a pergunta sobre a força simbólica que seu filme tem em um cenário atual de uma Itália que intriga o mundo por suas contradições internas, o diretor admite que este é um momento especial para Il Divo chegar às telas. "Só posso afirmar que, apesar das dificuldades, foi muito bom filmar esta história. Não quero falar só de política, mas também de cinema. Este é um filme que fala de um país em que os assuntos políticos não são nunca muito claros, ao contrario do que acontece com outros países vizinhos da Europa. Na Itália tudo é muito elíptico e nem sempre bem explicado", respondeu o diretor de outros belos filmes como Amigo de Família, que também foi exibido em 2007 em Cannes.  Sobre a opinião de Andreotti a respeito do filme, também prefere não se alongar. "Não temos um contato direto com ele. Fizemos uma sessão especial e soubemos que ele não gostou muito do que viu. Mas não vamos discutir sua opinião. É algo que não cabe a nós", acrescentou o ator Toni Sevillo (irreconhecível e impecável no papel de Il Divo).  Sorrentino e Sevillo saem pela tangente de certa forma, mas sua resposta de fato esta nas telas. Utiliza-se de toda a forca elíptica de seu país para criar elipses e metáforas visuais que elevam Il Divo à condição de um dos filmes com grandes chances de levar a Palma de Ouro. Gatos que cruzam o caminho de Andreotti, skates que deslizam "do nada" pelo gabinete do governo, passos, gestos, ações e expressões que mais parecem ter sido criados por um coreógrafos... O universo visual e onírico criado por Sorrentino é a metonímia de um país em crise com sua vida política.  Ao desenhar com sua lente a "coreografia do poder" na Itália, o cineasta prova sua qualidade. E prova também que a política vai mal, mas, em compensação, o atual cinema italiano presente em Cannes vai bem, grazie!

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