Michael Tyrone Delaney/The New York Times
Michael Tyrone Delaney/The New York Times

Idris Elba abraça lado gamer e papel em ‘Sonic’

'Ir de Nelson Mandela a Knuckles é meio estranho', afirma o ator

Entrevista com

Idris Elba

Dave Itzkoff, The New York Times

12 de abril de 2022 | 20h01

Quando Idris Elba assume um novo papel - seja fictício, como o Stringer Bell de The Wire, ou histórico, como o Nelson Mandela de Mandela: Longo Caminho para a Liberdade - ele geralmente tem algum grau de realidade em que se basear.

Não foi o que aconteceu com seu personagem mais recente, uma equidna carrancuda de desenho animado chamada Knuckles.

Como Elba explicou numa entrevista por vídeo na terça-feira: “Nunca conheci caras baixinhos e fofos com punhos grandes. Desculpe, mas tenho essa experiência. Talvez você tenha, mas eu não tenho”.

Para toda uma geração de gamers, Knuckles é mais conhecido como o rival de Sonic, a velocíssima estrela da franquia da Sega.

O sucesso do filme de 2020, com Ben Schwartz dando voz a Sonic e Jim Carrey como seu arqui-inimigo, o Dr. Robotnik, traduziu a série de videogames numa franquia de filmes que misturou live-action com animação.

A sequência, Sonic 2, que a Paramount lançou no dia 7, traz de volta os personagens e conflitos e apresenta mais rostos familiares dos jogos, entre eles Knuckles, um guerreiro poderoso com proporções físicas improváveis e um rancor particular contra o herói.

Elba, cujo extenso currículo de filmes inclui ação (Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw, Esquadrão Suicida), animação (Zootopia) e um musical de captura de movimento de Andrew Lloyd Webber (Cats), disse que fazer o papel de Knuckles foi “doideira”.

Em parte, porque Elba, 49 anos, é um fã dedicado dos videogames. Em outra parte, porque ele (assim como o autor desta matéria) é pai de um filho de 7 anos e estava ansioso para fazer alguns filmes que eles pudessem compartilhar em família.

Como Elba explicou: “Você e eu nos lembramos dos primórdios dos games e agora estamos aqui. Nossos filhos ficam, tipo, ‘Uau, posso ver Sonic 2 com meu pai’. É uma coisa muito especial”.

(Mesmo assim, quando mencionei que meu filho e eu também gostamos de videogames, Elba alertou: “Ele gosta de Minecraft e Roblox? Tome cuidado. Fique esperto. Você corre o risco de perder seu filho”.)

Elba falou sobre sua história como gamer e a gama de inspirações para Knuckles, entre elas os pais do ator. Aqui vão alguns trechos editados dessa conversa.

Você jogava videogame antes de fazer o filme?

Cem por cento. Sempre levo meu Switch na mala. Quando comecei, tinha um Commodore 64 (um computador doméstico dos anos 1980). Cara, é uma coisa muita antiga na minha vida. E depois, quando pude comprar, comprei um Sega Genesis. E tive praticamente todos os consoles desde então. Sou um cara adulto agora, mas ainda jogo Fifa e jogos de corrida.

O que você e o diretor Jeff Fowler conversaram sobre Knuckles na primeira reunião?

Nós testamos algumas vozes para descobrir como o personagem poderia soar. Ele parece meio ameaçador. Eu queria interpretá-lo com uma voz esganiçada. Achei que poderia ser engraçado. Mas eles não acharam engraçado, então rejeitaram a ideia de imediato (risos). Mas nós tentamos vozes, cadências, sotaques diferentes. Knuckles não é muito de falar, mas, quando fala, é muito franco.

Você recentemente fez o western ‘Vingança & Castigo’. O vilão Rufus Buck ainda estava na sua cabeça quando você começou a descobrir Knuckles?

Não Vingança & Castigo, mas Heimdall, meu personagem no mundo Marvel, nos filmes do Thor. Tem uma certa simetria nessas duas vozes. Olha, eu tenho uma voz profunda e poderia usar minha voz como ela é. Não queria conscientemente soar muito como Heimdall. Mas acho que sim, eles soam exatamente iguais (risos).

Parecia que você tinha uma ideia específica de onde Knuckles tinha vindo e como você queria que ele soasse. Como você explicaria isso?

A primeira coisa que observamos foi que ele vem de um mundo antigo, é um guerreiro da sua tribo, e o inglês não é sua primeira língua. Ele não tem senso de humor como o Sonic. É muito seco e objetivo e usa o inglês apenas para transmitir seu ponto de vista e seguir em frente. Não tem tempo para gentilezas. Usamos essa construção como uma maneira de começar a desenvolver a maneira como ele soa.

Você já encontrou pessoas na vida real que são muito focadas e intensas nos seus objetivos, mas talvez precisem de uma ajuda nas situações pessoais ou não entendam completamente o sarcasmo?

Eu trabalho numa indústria onde se passam muitas ordens - faça isso, faça aquilo - e muitas vezes as pessoas eficientes são aquelas que dizem, “Ei, vamos fazer esse negócio”. Meus pais são da África Ocidental - eles se mudaram de Freetown, Serra Leoa, para Londres no início dos anos 70. Então, o inglês não era sua primeira língua e a cultura era diferente - o senso de humor inglês é incompreensível para muita gente. Eu fui testemunha de tudo isso.

Crescendo em Londres, você sentia que a cultura e os costumes britânicos vinham mais organicamente para você do que para seus pais?

Nasci em Londres, então só me dei conta dessas coisas quando tive idade suficiente para entender que a cultura inglesa não era a cultura deles. Eu me lembro de sentir isso. Minha mãe dizia: “Lá na África, a gente faz as coisas desse jeito”. E eu jamais ousaria falar em voz alta, mas sempre pensava: não estamos na África - estamos na Inglaterra. Foi o começo da minha compreensão sobre esse choque cultural. Mas já estive na África algumas vezes e lembro de ter ido à Serra Leoa e reencontrado toda essa cultura que tinha visto a vida toda, mas não sabia de onde vinha. E estava lá, na origem dos meus pais. Foi fascinante.

A Paramount disse que gostaria de fazer ainda mais com Knuckles, até mesmo outro filme ‘Sonic’ e sua própria série de TV. Foi um ponto atrativo para você?

É agora. Honestamente, quando consegui o papel, eu nem sabia o que tinha pela frente. Pensei que iria fazer só um filme. Mas agora parece ótima a ideia de atuar mais como Knuckles e talvez até fazer um spin off dentro do seu mundo.

Existe uma outra franquia de filmes em que as pessoas adorariam ver você, sobre a qual todos estamos esperando ansiosamente para ouvir. Ainda é uma possibilidade para você?

(Silêncio).

Você sabe do que estou falando? O espião com a arma na mão?

Não entendi muito bem o que você quer dizer.

Ele tem um codinome famoso...

Codinome famoso? É o Knuckles! Com certeza. Mas sem armas.

Não vamos dar nenhum furo sobre James Bond numa conversa sobre Sonic?

Nãooooooo. Não mesmo. Lamento desapontá-lo.

Deixando isso de lado, você ficaria surpreso se, daqui a muitos anos, os papéis pelos quais você é mais conhecido fossem, digamos, Stringer Bell, Nelson Mandela e Knuckles?

Acho que para qualquer ator, o maior sonho é interpretar papéis diferentes e não ser rotulado, e sinto que tive a sorte de ter isso na minha carreira. Mas é interessante. Eu estava num programa de rádio, e as pessoas ficavam, tipo, (voz de locutor de rádio) “Ele interpretou Luther. Ele fez Beasts of No Nation. E agora: ele é o Knuckles”. É tipo, uh, talvez você possa dizer que ele interpretou uma foca em Procurando Dory e um búfalo em Zootopia. Ele interpretou um gato. E agora faz o Knuckles. Essa fila parece um pouco mais adequada. Ir de Nelson Mandela a Knuckles é meio estranho. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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