<i>Cartola</i>, de Lírio Ferreira, traz a nobreza do lorde do samba

Foi um caso de amor. Há dez anos, logodepois de Baile Perfumado, Lírio Ferreira embarcou em outroprojeto, desta vez de encomenda. O Instituto Itaú Cultural abriuum programa de desenvolvimento de projetos. A idéia, no começoda retomada, era ajudar produtores e diretores na formatação edesenvolvimento de roteiros e filmes. Não previa,necessariamente, que eles fossem realizados. Em parceria com oroteirista Hilton Lacerda e a produtora Clélia Bessa, da Raccord, Cartola começou a nascer. Era, como já se disse, uma encomenda e, em princípio,pode até parecer surpreendente que, após a vibração da manguebeat de Chico Science no Baile, Lírio tenha se voltado para asdensidades e sutilezas de um dos maiores poetas da músicapopular brasileira. Não há surpresa nenhuma. Cartola era Cartola um lorde, como o define Cacá Diegues, dando seu testemunho nodocumentário que estréia sexta-feira. Cartola segue-se aVinicius, de Miguel Faria Jr., que foi um grande sucesso depúblico - o documentário mais visto da história do cinemabrasileiro, com 204 mil espectadores. Cartola estréia em 25salas - cinco no Rio, quatro em São Paulo e as restantes emPorto Alegre, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, Salvador eRecife. Lírio e o roteirista Hilton Lacerda, que co-assina adireção, não sabem dizer em que momento se apaixonaram pelopersonagem. Talvez o amor já fosse anterior, talvez, ao penetrarnos mistérios daquela vida, tenham feito descobertas essenciais,sobre eles mesmos, mas a verdade é que, como diz Lírio, "ficamostomados pelo personagem". Perceberam que, por meio de Cartola,era possível fazer algo muito maior. "Uma história do Rio deJaneiro e do Brasil, mostrando a consolidação do samba comoautêntica expressão da cultura popular brasileira." Conta a lenda - não, não é lenda, é verdade -, que ogrande Villa-Lobos ia à Mangueira só para ouvir os sambas deCartola. Um dia, disse ao compositor "não estuda, não. Vocêfaz tudo errado, mas fica lindo!". Nem o mais exigente doscríticos ousaria contestar o criador das Bachianas Brasileiras. Cartola, nascido Angenor de Oliveira, podia ser um talentointuitivo, mas também era refinado, o que pode parecer umacontradição, em termos, mas no caso dele virava uma combinaçãoperfeita. Cartola atravessou o século do samba, desde o seunascimento, como um dos fundadores da Mangueira, em 1928 - foiquem escolheu as cores da escola, verde e rosa -, até suaaceitação no mercado fonográfico dos anos 60 e 70. Suatrajetória inclui muitos afastamentos da Mangueira, motivadospor desilusões amorosas, bebedeiras e dívidas. Nos anos 50,chegou a ser dado como morto. Uma equipe que incluía Beth Formaggini fez uma detalhadapesquisa sobre a vida e obra de Cartola. Ao contrário de outrosdocumentários, onde o diretor não sabe o filme que vai realizar,Cartola teve um roteiro detalhado. Mesmo assim, o formatodefinitivo e as soluções mais criativas na estrutura narrativade Cartola, o filme, nasceram da montagem. O "buraco negro"dos anos 50, quando Cartola desaparece, fornece uma audáciaestética. A tela fica preta e, no Festival do Rio do ano passado na primeira exibição de Cartola, no Cine Odeon, em plenaCinelândia, muitos espectadores chegaram a pensar que fosse umproblema de projeção. Lírio, que agora realiza outrodocumentário sobre música - O Homem Que Engarrafava Nuvens,sobre Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga -, descobriuque aquela solução instintiva na verdade possuía significadosinconscientes. "Naquele momento, o buraco negro não é só na vidae obra de Cartola. O próprio samba estava sendo ofuscado pelobaião, que virava a expressão popular do mercado fonográfico."Documentário e ficção Hilton Lacerda faz outra observação muito interessante."Quando saímos daquele túnel escuro e voltamos à luz, é emCopacabana, quando uma outra etapa da vida de Cartola e daprópria música brasileira vai começar" - a bossa nova, claro.Que Cartola tenha sido redescoberto lavando carros só contribuiupara o mito. Mas Cartola, que teve seus altos e baixos,financeiros e emocionais, nunca foi um marginal. Em 1974, aos 63anos, o compositor que já vinha criando desde os anos 30 (e atéantes), iniciou nova carreira, a de cantor. Foi quando elegravou seu primeiro disco, Cartola, na gravadora MarcusPereira, que fazia, na época, um importante trabalho demapeamento da MPB, provocando a declaração entusiasmada docrítico José Ramos Tinhorão, que escreveu - "De agora em diante,cantor que for gravar samba de Cartola vai ter de ouvi-loprimeiro, para aprender." Dez anos, uma década inteira. Por que Cartola demoroutanto tempo para ser feito? Um pouco pela pesquisa, esclarecemLírio e Hilton, mas também por causa da complexa questão dosdireitos, acrescenta a produtora Clélia Bessa. "No Brasil, aindasomos muito desorganizados nessa questão do arquivo histórico edos direitos de imagem e de autor. Talvez (ela faz a ressalva),se tivéssemos recorrido a arquivos estrangeiros tivesse sidomais fácil." A questão do direito é complicada. Em geral, essescompositores populares possuem vários detentores de seusdireitos e são pessoas pobres, que imaginam que um filme poderáser a sua chance de enriquecer. Cartola custou em torno de R$ 16 milhão e mais de R$ 600 mil, com certeza, foram gastos só naaquisição dos direitos de imagens e músicas. Durante o processo de criação de Cartola, LírioFerreira fez uma ficção, Árido Movie. Não parou com Cartola."Estava tão envolvido com os dois filmes que queria que o meudia tivesse mais de 24 horas", ele diz. Acrescenta que não lheinteressam as divisões de gêneros nem formatos. Para ele, sobcertos aspectos, Cartola é mais ficção que o Baile. Lírioestá falando de uma tendência do cinema brasileiro atual,referendada no Festival Internacional de Documentários É TudoVerdade, que terminou domingo, em São Paulo e no Rio. Filmescomo Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, operam nas bordasdo documentário e da ficção, sem reconhecer fronteiras. E a telaescura de Cartola repetiu-se em vários outros filmes. Ao longo de sua carreira, Lírio tem compartilhado adireção de seus curtas e longas. Co-dirigiu com Paulo Caldas(Baile Perfumado). Co-dirige Cartola com Hilton, que haviasido co-roteirista no Baile e também co-escreveu os marcosrecentes do cinema pernambucano - Árido Movie, do próprioLírio, e Amarelo Manga e O Baixio das Bestas, de CláudioAssis. Lírio acha muito rica e estimulante a criação em grupo.Hilton vai além. "Baile Perfumado foi um filme tão importanteno desenvolvimento de um cinema pernambucano que eu tenhoimpressão que, se tivesse dado errado, não teríamos o atualcinema de Pernambuco. Todo mundo que faz cinema lá de algumaforma está, ou esteve, envolvido no processo de BailePerfumado. O filme era de Lírio e Paulo, mas também era detodos." Os olhos de ambos brilham durante a entrevista realizadano anexo do Espaço Unibanco de Cinema, na segunda-feira à noite,pouco antes da exibição de Cartola para convidados, no outrolado da Rua Augusta. No café do cinema, a TV Globo já montou umset para entrevistar a dupla de diretores. Mas ainda resta umaquestão essencial. Cartola criou pérolas como O Sol Nascerá,Divina Dama, Amor Proibido, Preconceito, Acontece, mas émuito provável que, se você sair perguntando qual a composiçãopela qual ele merece ser reconhecido, a maioria do público nãopensa duas vezes e responde logo - As Rosas não Falam.Cartola, o filme, demora para satisfazer o desejo do públicode ouvir As Rosas não Falam, mas quando ela vem é em diversasvozes - incluindo, claro, a de Beth Carvalho. Não foi um efeitocalculado. Bem - talvez tenha sido, admite Lírio Ferreira. Masele assinala que Cartola segue a cronologia e a consagração deAs Rosas pertence à fase dos anos 60. Cartola no violão, DonaZica, a lendária companheira, na cozinha, durante dois anos, noZicartola, eles haviam, batalhado para levar a nobreza do sambaà cidade. Nobreza que Cartola representou como ninguém.

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