<i>Cartas do Saara</i>, a vida de um imigrante na Itália

Vittorio De Seta - o nome é um mito dodocumentarismo italiano. De Seta foi homenageado este ano noFestival de Veneza, ao apresentar seu Cartas do Saara. De Setatem 83 anos, e no sábado estará numa mesa que discute aatualidade do cinema político. Trouxe com ele o novo filme. Umfilme de ficção, mas claramente feito por um documentarista. Nele, De Seta analisa um dos temas mais explosivos - eurgentes - da Europa unificada: a imigração e as diferentesatitudes que os países têm diante dela. Trata-se de um temapreferencial, como é, para nós, a violência urbana, por exemplo.Não por acaso, vários filmes italianos têm tratado do assunto,como o recente Novo Mundo, de Emanuele Crialese, tambémpresente na Mostra. O problema, para os italianos conscientes, é enfrentarum paradoxo. Foram, num passado nem tão distante, um povo deemigrantes. Por isso há italianos em todos os cantos do mundo.Como agora podem repelir os que buscam na Itália a mesma coisaque os italianos de outrora buscavam em outros países? Ou seja,sobreviver, melhorar, progredir, dar um futuro melhor para osfilhos? Isso lá é um crime? Para desenvolver essa idéia, De Seta conta a história deum jovem senegalês, que atravessa todas as dificuldades parachegar ao paraíso do Primeiro Mundo. Na Itália, sobrevive comdificuldade. Precisa aprender a falar a língua, a escrevê-la, ase mover em uma cultura que não é a sua de origem. Enfrentaresistências. Encontra também quem o ampare. E esse ponto éfundamental, porque impede o filme de cair no maniqueísmobem-intencionado. Afinal, nem todo mundo é nacionalista xenófobo Nem todo mundo acha que o imigrante é um inimigo em potencial,ou alguém inferior. Mas existe quem ache tudo isso e, na própriaItália, alguns políticos de direita pregam o ódio racial. O filme apresenta uma narrativa interessante, emborabastante tradicional do ponto de vista da forma. Como disse, nãocai no maniqueísmo nem deixa de lado essa que é uma questãofundamental para todo imigrante - o problema que enfrenta emrelação à sua identidade própria. Se a aceitação é uma luta quetem de travar contra os outros, o problema da identidade é umcombate consigo próprio. E muitas vezes mais árduo. Cartas do Saara (2006, 132 min.) - Cine Bombril. 2. Av.Paulista, 2.073, Conj. Nac., (11) 3285-3696. Quinta-feira, às 16 horas

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