<i>Canta Maria</i> marca volta de Francisco Ramalho Jr. à direção

Francisco Ramalho Jr. pertence a uma geração que fez política nos anos 60, que sonhava mudar o Brasil e salvar o Nordeste. Ecos dessa formação transparecem em Canta Maria, seu belo filme que estréia nesta sexta-feira. Ramalho rompe com 20 anos de silêncio como diretor mesmo que durante todo este tempo tenha estado muito ativo como produtor associado de Hector Babenco. Canta Maria também marca seu retorno ao Nordeste, com base no romance Os Desvalidos, do escritor sergipano Francisco J.C. Dantas, que ele define como um barroco na tradição de Guimarães Rosa. "É o novo Guimarães", diz. Ele estava na Argentina, trabalhando em Coração Iluminado, em 1998, quando teve o clique. Seu último filme como diretor datava de 1986, Besame Mucho. Ramalho restava determinado a dirigir de novo, mas ia sempre postergando, por causa dos grandes projetos em que Babenco se envolvia e para os quais ele era arrastado. Releu Os Desvalidos e, em meio à profusão de personagens, descobriu alguma coisa que o arrebatou. Na verdade, tudo começou com a frase "Vou pensar", que Maria diz a Filipe, quando ele a pede em casamento. Isso não dá filme, disseram amigos, colaboradores. Ramalho regressou ao livro, leu de novo, inúmeras vezes, e retirou dele a história do triângulo formado por Maria, Felipe e Coriolano, no quadro de um Nordeste em guerra, entre cangaceiros e volantes, tropas especiais de soldados. Ele não quis fazer um filme social nem sobre cangaço, mas acha que, em Canta Maria, há como que uma história da ascensão da classe média nordestina. Filipe é amansador de cavalos, vira caixeiro-viajante. Coriolano segue o conselho da mãe, que diz que ele tem de ter uma profissão, e trabalha com couro. Dois homens, uma mulher e uma arrebatadora história de amor que se desenrola no tempo. Foi uma produção complicada, do ponto de vista da engenharia financeira. Difícil de fazer, também, porque Ramalho não abriu mão do formato cinemascope nem da filmagem com película para captar a grandeza da paisagem. No limite é um filme que foge aos estereótipos - de filmes de cangaço, principalmente. É outro filme centrado numa mulher. Maria, interpretada por Vanessa Giácomo, fornece um interessante contraponto a Hermila em O Céu de Suely, outra estréia de hoje. Canta Maria (Brasil/2006, 95 min.) - Drama. Direção de Francisco Ramalho Jr. 12 anos. Em grande circuito. Cotação: Bom

Agencia Estado,

17 Novembro 2006 | 11h19

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