<i>Batismo de Sangue</i>, de Helvécio Ratton, comove Brasília

Comovente a sessão no Cine Brasília de Batismo de Sangue, filme de Helvécio Ratton adaptado do livro homônimo de Frei Betto. O filme conta uma história trágica da época da ditadura. Alguns frades dominicanos, que se colocaram como linha auxiliar da Aliança de Libertação Nacional, a ALN de Carlos Marighella, foram presos e torturados. Entre eles, o narrador, Frei Betto (Daniel de Oliveira, de Cazuza) e Frei Tito Alencar Lima (Caio Blat). Tito é o personagem trágico. Torturado à loucura pela ´equipe´ do delegado Sérgio Paranhos Fleury, nunca mais recuperou a paz de espírito. Foi solto, exilou-se na França e buscou refúgio num convento da sua ordem. Atormentado por fantasmas do passado, suicidou-se em 1974. O filme de Ratton levou a platéia à emoção mais profunda. Batismo de Sangue é, salvo engano, o mais honesto retrato daquela época lamentável até agora criado pelo cinema nacional.Também foi muito aplaudido O Engenho do Zé Lins, exibido no Cine Brasília na noite anterior. É esse o título do novo documentário de Vladimir Carvalho, dedicado, evidentemente, ao seu conterrâneo José Lins do Rego. De um paraibano para outro, Vladimir dirige um filme emocionado, que refaz a trajetória do escritor desde a infância, como menino de engenho, até a morte prematura no Rio, de cirrose hepática, aos 56 anos. Grande escritor, Zé Lins é autor de obras fundamentais como Menino de Engenho (filmado por Walter Lima Jr.), Fogo Morto, Pedra Bonita e Cangaceiros, entre outros. Foi grande figura humana, também. Flamenguista fanático, dirigente esportivo, as histórias engraçadíssimas de que foi protagonista são relembradas no filme. Numa delas, Zé Lins desce ao vestiário do Maracanã para emprestar solidariedade ao time do Flamengo, que havia perdido um jogo. Abraça o craque Jair Rosa Pinto mas, em seguida, recua horrorizado. O jogador está seco, enxuto, composto, como se tivesse participado de uma partida de bridge. Revoltado, Zé Lins exige a camisa de Jair, sai com ela na mão, promove um comício contra ´jogadores mercenários´ e a queima em público.Quem conta a história engraçada é Carlos Heitor Cony, que no entanto comete o desatino de dizer que a Semana de Arte Moderna de São Paulo não teve a menor importância e o modernismo começou mesmo foi com os escritores nordestinos, como Zé Lins. Mas, de resto, a sua participação é ótima. Como bons são também os outros depoimentos, de parentes do escritor, de Ariano Suassuna, e o de Thiago de Mello em particular.Thiago narra a agonia e morte de Zé Lins, a quem idolatrava. É uma longa fala, amazônica, oceânica, talvez excessiva, mas testemunha de uma maravilhosa amizade entre os dois escritores. Muito emocionante. O documentário, com seus possíveis defeitos, é ótimo e foi aclamado pelo público do Festival de Brasília. Dá vontade de reler Zé Lins, que foi um artista da palavra como poucos neste país.Esses dois longas reafirmam a impressão inicial de que o nível do festival será muito bom. Não apenas escolhem bons temas (o que é apenas um primeiro passo), mas os desenvolvem com muita maturidade. O Engenho de Zé Lins começa um tanto arrastado, mas depois encontra seu rumo, juntando as pontas de depoimentos interessantes com imagens de arquivos. Produz uma imagem multifacetada do escritor, destacando passagens fundamentais da sua vida, como o acidente com arma de fogo que provoca a morte de um amiguinho, na infância, e cuidadosamente abafado pela família de Zé Lins (e por ele próprio) ao longo da sua existência. Já Batismo de Sangue usa uma fotografia fria para compor aqueles anos tristes. Começa com planos de cortes rápidos, para causar a impressão da urgência e dos perigos da luta política. Depois torna-se lento e solene à medida em que o sacrifício de Tito progride na tela. Termina como um réquiem.Entre os curtas, o destaque foi para Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de Thomaz Farkas e Ricardo Dias, narrando a recuperação de preciosos fotogramas que registram o espetáculo de Pixinguinha e seus amigos no Parque do Ibirapuera nas comemorações do 4. Centenário de São Paulo. As imagens daquelas grandes figuras (Pixinguinha, Almirante, João da Baiana, Benedito Lacerda, etc.) tocando seus instrumentos, cantando, dançando, brincando entre si, provocaram forte reação na platéia: o filme foi aplaudido em cena aberta por três vezes. É o Brasil de que podemos nos orgulhar.

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