<i>Baixio das Bestas</i> vence Festival de Cinema de Brasília

Diante de uma platéia dividida entre vaias e aplausos calorosos, Baixio das Bestas, de Cláudio Assis levou o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema de Brasília, em cerimônia realizada no Teatro Nacional Claudio Santoro. O longa-metragem pernambucano, que gerou discussão acalorada desde sua exibição no último domingo, também levou os prêmios de Melhor Atriz (Mariah Teixeira), Melhor Ator Coadjuvante (Irandhir Santos), Melhor Atriz Coadjuvante (Dira Paes) e Melhor Trilha Sonora (Pupillo, baterista do Nação Zumbi, que realiza trabalho primoroso em uma trilha enxuta e contundente) e Prêmio da Crítica. ?Acho ótimo que haja vaias. É sinal de que o filme provoca e cumpre seu papel. Quem está acostumado com o lugar comum estranha mesmo e reage da forma que reagiu. Não estão preparadas. O filme é forte porque toca no inconsciente. Há muitos filmes mais violentos que este. A violência arraigada está na cabeça das pessoas?, declarou Assis, que já levou o Candango por Amarelo Manga. Baixio das Bestas dividiu o público. Há observações a serem feitas em um filme que investiga o determinismo de uma sociedade decadente tanto economicamente quanto moralmente, em que os ?humanos? são esmagados feito bagaço de cana em uma engrenagem social enferrujada. Assis joga seu foco sobre o Baixio das Bestas, ?um lugar onde se é nada e a gente consegue ser ninguém?, na Zona da Mata pernambucana. O longa coloca um espelho diante de seus tipos humanos. E o que se vê é um mundo doente. O tratado do diretor pernambucano sobre o determinismo e a crueldade, pode carecer de sutilezas e aproximar demais seus personagens a tipos, mas dá um grito importante contra a violência que atinge as mulheres em uma sociedade em que a misoginia é tão arraigada que passa despercebida até das almas mais bem intencionadas. Contrariando a regra de que Melhor Filme geralmente leva também Melhor Direção, o melhor diretor da noite foi Helvécio Ratton, por Batismo de Sangue, baseado na obra homônima de Frei Beto, que retrata a participação da igreja na luta armada contra a ditadura militar no Brasil durante os anos 60 e 70. ?Estou honrado. Este festival teve filmes de diretores que admiro muito e gosto. Dedico este filme ao todos que caíram nos porões da ditadura.? Mais prêmios Um dos momentos mais emocionantes da noite foi a premiação de Maxwel do Nascimento, o Querô, de Carlos Cortez. ?Nem sei o que dizer. Este é meu primeiro filme. Com ele, descobri o que quero fazer da vida. Quero fazer cinema?, declarou o garoto, que foi selecionado entre mais de mil garotos de regiões carentes da Baixada Santista, onde o filme, baseado em romance de Plínio Marcos, está ambientado. Querô ainda levou os mais que merecidos prêmios de Melhor Direção de Arte e Melhor Roteiro. O preferido do público foi Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá, de Sílvio Tendler, um importante, ainda que didático, libelo contra a perversidade da tão apregoada globalização. O Engenho de Zé Lins, de Renato Martins e Vladimir Carvalho, levou o Prêmio Especial do Júri e Melhor Montagem. A premiação dos curtas-metragens se revelou a mais ousada do festival. O júri, corajoso, acertou ao premiar Trecho, de Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina. O curta também levou os prêmios de Melhor Montagem e Melhor Fotografia. Trecho é prova do frescor que o novíssimo cinema brasileiro ainda pode ter. Anna Azevedo levou a Melhor Direção em curtas pelo singelo O Homem-Livro, que também foi o escolhido dos brasilienses para levar o prêmio do Júri Popular. O primeiro filme de Anna a concorrer em Brasília ainda levou o Prêmio Aquisição Canal Brasil, também concedido ao curta Noite de Sexta Manhã de Sábado, de Kleber Mendonça Filho, que levou também o Prêmio da Crítica.

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