<i>Baixio das Bestas</i> é bem recebido em Mar del Plata

Polêmica, para dizer o mínimo, foi a sessão do brasileiro Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, no último dia de competição do festival de cinema de Mar del Plata. Vencedor do último festival de Rotterdam e de Brasília, o longa ainda inédito no mercado brasileiro faz parte da novíssima seleção exclusiva para filmes latino-americanos no evento de cinema mais importante da América. Até hoje, o forte conteúdo político tem sido destaques dos filmes selecionados. Seções de Cocaleros, documentário dirigido por Alejandro Landes sobre Evo Morales, e Pancho Villa - A revolução ainda não acabou, de Francesco Tabeada Tabone, sobre o herói da resistência mexicana, foram os mais aplaudidos e são favoritos na categoria. Ainda que sem fazer discurso político declarado, o longa-metragem brasileiro parte de um pressuposto social e, por que não dizer, político. É a engrenagem de uma indústria retrógrada e agrária, a canavieira, que alimentou e consumiu toda uma região do interior pernambucano. Dentro desta engrenagem determinista econômica, e socialmente, o indivíduo torna-se mais uma peça sem vontade própria e sem poder traçar seu destino. Baixio causou reações diversas na platéia de Mar del Plata. No debate que se seguiu à sessão, não faltaram questionamentos sobre a forma como o diretor retrata a violência contra a mulher. A sempre interessada platéia argentina saiu calada e surpresa diante da realidade cruel e fielmente retratada pelo diretor. "Claro que é a realidade. Aliás, o que acontece é ainda pior do que no filme, que é uma obra de ficção, ainda que baseada em relatos e fatos que eu, que sou pernambucano, ouvi falar sempre", declarou Assis quando questionado por uma espectadora se ele não havia exagerado na carga de violência cometida contra a mulher em seu filme. A platéia, ainda que chocada, aprovou e parabenizou o diretor. "É até irônico dizer isso, mas seu filme, apesar de muito duro, é um filme belo. Esta contradição entre fatos tão cruéis que são revelados e filmados de uma forma tão bela e em lugares tão lindos causa uma sensação de fato especial", declarou um espectador. "Eu não faço filmes para agradar ninguém. Acredito na função social e política que o cinema tem. Nosso mercado de cinema, não só no Brasil, mas em toda a América Latina, está completamente dominado por um modelo hollywoodiano que não corresponde às nossas identidades culturais", declarou Assis. "Não há porque nós continuarmos a fazer um tipo de filme que, ou apela para a linguagem televisiva, a que o público infelizmente se acostumou a ver, ou apela para o formato norte-americano. Temos que contar nossas próprias histórias. Cinema é ideologia também. E precisamos ocupar nosso devido lugar", concluiu o diretor, que estréia seu filme no Brasil em maio. Na próxima semana, Baixio das Bestas representa o cinema brasileiro no Festival de Cinema de Toulouse, no sul da França, ao lado de A Casa de Alice, de Chico Teixeira, que acaba de participar do Festival Internacional de Cinema de Miami, que premiou a atriz Carla Ribas por sua atuação.

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