Mario Anzuoni/Reuters
Mario Anzuoni/Reuters

Ian McShane coloca todos os seus [palavrões] no lugar certo

Com seu charme feroz intacto aos 76 anos, McShane está a todo vapor

Entrevista com

Ian McShane

Kathryn Shattuck, The New York Times

02 de julho de 2019 | 15h07

Antes de conseguir o papel de Mr. Wednesday em Deuses Americanos, Ian McShane não tinha lido o fantástico romance de 2001 de Neil Gaiman. Então ele pegou e, quatro leituras depois e contando, ainda não o abandonou.

“Não é meu gênero preferido, como se diz, mas havia algo bastante empolgante ali”, lembrou ele. “Parecia o modelo perfeito para uma série de TV por causa de todas as histórias de ‘vinda para os Estados Unidos’. Você poderia ir onde quisesse dentro daquele mundo”.

Deuses Americanos, o livro e a série, partem de um mundo onde as divindades são reais - e andam entre nós. Existem os antigos deuses (como Loki, Bilquis e Anansi), que vieram para os Estados Unidos junto das crenças dos imigrantes, e os novos (Menino Técnico e Mídia), que ascenderam através das fixações contemporâneas.

E na primeira temporada, os criadores do programa, Bryan Fuller e Michael Green, ficaram atrás de Shadow Moon (Ricky Whittle), um ex-presidiário sem objetivo, e Mr. Wednesday, um excêntrico golpista, serpenteando em viagem pelo país para visitar deuses antigos cada vez mais irrelevantes - e defender a guerra contra os novatos que tentam usurpar seu poder.

Mr. Wednesday acabou sendo revelado como nada menos que Odin, o onipotente pai dos nórdicos. Na segunda temporada - retornando no Starz (canal por assinatura) em 10 de março, após um hiato de 21 meses, durante o qual Fuller e Green deixaram o show - o encontra preparando suas antigas tropas para uma batalha épica.

Com seu charme feroz intacto aos 76 anos, McShane está à toda nesta primavera, com os Deuses Americanos seguidos por quatro filmes em abril e maio: Hellboy, Bolden, John Wick: Chapter 3 Parabellum e Deadwood, a longa sequência do famoso faroeste cult da HBO que terminou em 2006, no qual ele reprisará seu brutal Al Swearengen, cafetão e gerente de saloon no Dakota Territory. Em uma entrevista por telefone de Los Angeles, ele contou sua própria história de “vir para os Estados Unidos” e revelou qual deus ele gostaria de ser.

Aqui estão trechos editados da conversa.

Muita coisa aconteceu entre as temporadas 1 e 2 de Deuses Americanos, com a saída dos criadores originais e Gillian Anderson e Kristin Chenoweth. Como você se sentiu em meio a esse redemoinho?

Ei, isso é o que acontece na vida. Um pequeno tumulto nunca magoou ninguém, desde que isso tenha sido um pouco mais criativo no final, e acho que talvez tenha sido.

De que maneira?

Onde eles estão, para onde vão, é retornar ao livro de Gaiman um pouco mais do que a primeira temporada, o que eu achei excelente e provocativo e muitas coisas boas surpreendentes, mas tendiam a vagar pelo livro. A segunda temporada trata mais de fazer perguntas a Shadow, porque ele precisa se tornar mais dinâmico e se concentrar nos próprios deuses. E também trazendo os novos deuses para lá, porque eles tendem a ser muito sombrios até o fim. Então, sim, acho que é um ano muito emocionante.

Você é britânico, mas vive principalmente em Los Angeles. Qual é a sua própria história de “vir para a América”?Eu voltei pela primeira vez em 1975 e vivi aqui quase permanentemente nos últimos 17 anos por causa do trabalho. É muito estranho o que está acontecendo nos Estados Unidos. Eu ainda acho que é um país maravilhoso e maravilhoso. São apenas momentos estranhos.

A série aborda imigração, racismo, xenofobia e controle de armas. Você tem alguma ideia de como isso seria presciente?

Bem, foi muito interessante o que estava acontecendo quando fizemos a primeira temporada de Deuses Americanos. O país deu uma séria virada para a direita, por mais que gostariam que fosse uma guinada para a esquerda. Eu não acredito que os Estados Unidos reconheceriam um socialista se caíssem sobre ele. Eles acham que é alguém que vive em um sótão na Rússia e não tem telefone nem geladeira. Mas isso se deve à falta de instrução. Os Estados Unidos têm sido estúpidos ao longo dos anos, o que é uma vergonha. É maravilhoso ver o Congresso agora com uma cor de arco-íris, se você gosta, de imigrantes e nacionalidades e pessoas que amam este país. Eles estão falando sobre isso de uma maneira diferente.

Vamos falar sobre seus próximos filmes, começando com Deadwood.

Deadwood era como estar em uma viagem com ácido, como ser transportado de volta 15 anos atrás. Pessoas que você amou e conheceu, algumas que você viu, outras que você não viu - mas você se diverte com elas quando anda naquele set, fazendo um ótimo trabalho, amando o trabalho que está fazendo e esperando que as pessoas , quando aquilo sair, vão se divertir.

Você pode dar uma indicação sobre a linha da história?

Eu posso dizer que se passa 10 anos depois, Dakota do Sul acabou sendo um estado e (Gerald) McRaney está voltando como senador - ele interpreta George Hearst, que é uma espécie de vilão da peça - e tudo se conecta em um estranho, ótima maneira para um último episódio quando saímos.

Como Al ficou?

Dez anos farão a diferença, especialmente se você beber demais. Mas essa é a vida.

E eu estou imaginando que sua linguagem será obscenamente poética como sempre?

Sim, ele pode ter a propensão de palavrões, mas todo xingamento foi escrito por David Milch. Se você colocar um (palavrão) no lugar errado, você é (palavrão) porque tudo tem a ver com ritmo. Foi uma tentativa deliberada de chocar.

Ouvi dizer que você não fará parte do The Continental, o spin-off da Starz.

Eu posso lhe dar uma voz. Nunca se sabe.

Mas você está no retorno de Hellboy.

Hellboy, sim! Eu acho que isso vai surpreender muita gente. David (Harbour, de Stranger Things) é um ator maravilhoso. Ele simplesmente preenche o papel. Foi legal e amargo assumindo (o professor Bruttenholm) que era de um querido velho amigo meu, John Hurt. Mas não é a Parte 3. É uma reinicialização completa de Hellboy, de Guillermo del Toro, e acho que eles escolheram o cara certo em David. Foi um prazer trabalhar com ele e estar na Bulgária por três semanas, um país que nunca estive antes. As melhores verduras que eu já provei. E os roteiros são divertidos, inteligentes e brilhantes, e a ação é fantástica, e eu tenho netos que amam tudo isso, eles mal podem esperar.

Última pergunta: O coração dos Deuses Americanos é fé e crença. Você é um crente? E se sim, quem é seu deus?

Eu acredito que Jesus Cristo é um cara legal, absolutamente, e se ele voltasse de novo eles o matariam, é claro. E não só porque ele era judeu também. Eles o matariam porque hoje em dia, se você fala sobre qualquer coisa, você é mal interpretado em qualquer outra coisa. Então, se eu fosse um deus, seria o deus da tolerância. Não é um deus vingativo - não. Eu seria o deus da tolerância e compreensão e diria: “Todo mundo vale a pena.”

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