<i>A Rainha</i> traz o talento excepcional de Helen Mirren

São duas rainhas da arte darepresentação, em dois filmes que estréiam nesta sexta-feira. Uma,Helen Mirren, vai ganhar o Oscar, justamente por A Rainha, quelhe valeu todos os indicadores do prêmio da Academia deHollywood - depois de se sagrar melhor atriz no Festival deVeneza do ano passado, pelo filme de Stephen Frears, Helen foitambém a melhor atriz no Globo de Ouro e a melhor atriz no SAG,o Screen Actors Guild. A outra, Kate Winslet, foi indicada parao Oscar por Pecados Íntimos, o novo Todd Field. Merece, talvez ainda mais, a cobiçada estatueta dourada, que haveria desacramentá-la como a melhor atriz de sua geração, mas não leva.Nem por isso se poderá dizer que Helen Mirren não terá merecidoseu prêmio. Grande Helen Mirren. Há cinco anos, já reverenciada comoatriz excepcional - coisa de que ninguém duvidava, depois dehavê-la visto no cerimonial teatralizado de O Cozinheiro, OLadrão, Sua Mulher e O Amante, de Peter Greenaway -, ela esteveem São Paulo, acompanhando anonimamente o marido, o diretorTaylor Hackford, que veio promover o lançamento de Prova deVida, o drama romântico estrelado (e estragado) por Meg Ryan eRussell Crowe, cujo romance (real) terminou sendo maisimportante que o do filme. Helen andou livre e solta pelo hall epelos corredores do Hotel Crowne Plaza, sem que ninguém seinteressasse de saber quem era aquela mulher classuda. Após a indicação para o Oscar - e o favoritismoanunciado pelos prêmios que recebeu -, Helen não poderia pisarna cidade sem que um batalhão de repórteres e fotógrafos aperseguissem. E ainda tem gente que quer subestimar aimportância do prêmio da Academia de Hollywood. Esteticamente,até pode ser, mas como evento midiático, nunca. Helen Mirren havia feito Elizabeth I numa minissérie deTV. Na seqüência, fez o filme de Stephen Frears sobre ElizabethII. Pelos dois papéis, ganhou duas vezes o Globo de Ouro - comomelhor atriz de TV e melhor atriz de drama para cinema. AElizabeth II de Helen é uma jóia de rigor, mas, se é possívelafirmar-se isso, sua Elizabeth I é melhor ainda, uma criaçãototalmente ficcional de uma atriz que sabe usar todo o arsenalde recursos de que dispõe - a voz, o corpo, os gestos, osolhares, tudo. A Elizabeth I de Helen era a rainha tirana,testando os limites do seu poder. Sua Elizabeth II é uma rainhaem crise. Isso abre espaço para que o filme, embora se chame ARainha, seja também (ou até mais) sobre Tony Blair. Antes de se lançar a este filme, Stephen Frears fez,para TV, uma minissérie sobre o premier britânico e a forma comopavimentou seu caminho para o poder. Pode-se explicar facilmenteo interesse do autor pelo personagem - Frears adora filmarrelações perigosas, e não por acaso, fez o filme que leva estetítulo -, mas é bom lembrar que, em seus filmes dos anos 80, elefoi um crítico contundente da Inglaterra dos excluídos que aDama de Ferro, a então primeira-ministra Margaret Thatcher,desenhava com sua rígida política neoliberal. Um premiertrabalhista como Blair deveria iniciar uma nova era, mas elealinhou seu governo à geopolítica do presidente George W. Bush.Virou saco de pancada da Inglaterra (e de Frears).Morte de Diana A Rainha, o filme, focaliza um período bastantetumultuado da vida de Elizabeth II, aquele que se seguiu à morteda princesa Diana. Lady Di, por seu comportamento, não eraexatamente uma figura palatável para a rainha. As circunstânciasde sua morte, muito menos. Mas Elizabeth II revelou-se, dianteda morte, um caso singular de insensibilidade pública. Lady Diera amada pelos ingleses, era a chamada ?princesa do povo?. Opovo sentiu sua morte como se fosse um deles. O Palácio deBuckingham, e a rainha, se mantiveram à margem do sentimentopopular. Frears mostra os esforços de Tony Blair para fazer arainha mudar seu comportamento. Jovem ainda, ele poderia ser apenas mais um dosprimeiros-ministros com quem Elizabeth II conviveu desde quesubiu ao trono, no começo dos anos 50. Mas, como Frears registracom sua câmera, o primeiro-ministro dos trabalhistas terminousendo o homem que salvou a realeza num momento crítico. Seucomportamento, no episódio Diana, lhe aumentou a estima popular- o que ele perdeu agora, por causa do apoio a Bush que estáimpondo tantos sacrifícios humanos na guerra do Iraque. No final a rainha pode agradecer a Tony Blair por sua intervenção, masela adverte que poderá ocorrer o mesmo com ele. Ela também eraamada, até desagradar ao povo. O Tony Blair de A Rainha podeser o bem amado , mas o quadro hoje é outro. Como compor uma personagem como essa rainha que temestado sob os holofotes a vida inteira? Helen Mirren setransforma na imagem de Elizabeth II vista num espelho.Colocadas lado a lado, seria difícil, talvez, saber quem é quem.Ela incorporou a exterioridade da rainha, mas isso é só metadedo seu esforço. Era preciso iluminar também seu interior. Talvezseja impossível penetrar na mente da rainha, mas Helen e Frearsoferecem uma interpretação fascinante dos seus motivos. Vão além- transformam a rainha numa cabeça dura, obstinada, e depoisfilmam seu recuo tático. É um exercício fascinante. ComoElizabeth I, Helen foi mais livre, pois, se temos registrosiconográficos da rainha, não temos a sua figura em movimento,nem a sua voz, os seus gestos (exceto aqueles celebrizados pelocinema). Em A Rainha, o modelo está sempre presente, e Helen osegue, como quem mimetiza o outro. A questão é ir além daexterioridade. É aí que entra o grande talento de Helen Mirrencriando o interior daquela metade externa tão perfeita, tãoimpressionante. A Rainha (The Queen, Ing/Fr/It/2006, 97 min.) - Drama. Dir.Stephen Frears. 14 anos. Cotação: Bom

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