<i>A Pele</i> traz Nicole Kidman como a fotógrafa Diane Arbus

Ninguém fica imune diante de uma fotografia de Diane Arbus (1923-1971): nem quem gosta nem quem não gosta. Nascida em Nova York, foi por meio de seu marido Allan Arbus que se iniciou na fotografia. Juntos, montaram um estúdio e passaram a criar editoriais de moda (ele como fotógrafo, ela como estilista). Mas foi só após seu divórcio e de sua aprendizagem com a fotógrafa Lisette-Model (1901-1983) que ela iniciou seu trabalho autoral. Foi ela que inspirou e praticamente tornou Diane uma fotógrafa. Foi nesse momento, no fim dos anos 50, que explodiu a profissional.É impressionante a força imagética e de comunicação de suas imagens. Fotógrafa humanista, fez das ruas da cidade de Nova York seu estúdio fotográfico. Seus personagens nos miram de frente, colocados acuradamente em pose pela fotógrafa. Outro mundoMas o que realmente nos interessa são os fatos, as histórias que ela quer nos contar por meio de seus retratos. Ela registrava o que as pessoas em geral consideravam não-fotografável. Ou o que a sociedade ?de bem? se negava a ver. Ela queria mostrar que existia um outro mundo. E não precisava ir longe: achava seus personagens ao lado de sua casa, nas boates de Nova York, nos abrigos para pessoas abandonadas à sua própria sorte, nos parques de diversões, entre as pessoas internadas nos hospitais psiquiátricos.Sem dúvida, porém, o mais marcante são os retratos. Ela procura o que aos olhos dos outros parece estranho, mesmo na ?normalidade? ela procura o ?anormal?. Em suas imagens ela não procura o ?belo clássico?, ela quer retratar a angústia, o desespero, a descrença. Ao mesmo tempo, oferece a esses renegados o poder e a importância da pessoa fotografada. Se for verdade que todo retrato é um auto-retrato, possivelmente Diane Arbus procurava a si mesma em seus personagens. Mas isso é apenas suposição. Na verdade, o que fica dessas imagens é o que deveria ficar de todas: não importa a fotografia em si, mas sim o que ela nos comunica, o que representa. E, sem dúvida, isso ela consegue. Suas imagens nos fazem pensar. (Simonetta Persichetti)Falta essência na recriação da artista, pelo filme de Steven ShainbergPouca coisa do que você acaba de ler na reportagem, sobre a fotógrafa Diane Arbus, aparece no filme de Steven Shainberg que estréia nesta sexta, 9. A Pele não é uma cinebiografia da fotógrafa, mas uma fantasia inspirada em seu imaginário. Em vez de contar como foram as coisas, Shainberg conta como poderiam ter sido - justamente para lançar as bases do mundo bizarro que ela desenvolveu em sua arte. A proposta é interessante. O resultado não convence. O filme é pretensioso e o diretor, desta vez, não logra criar um clima, como ocorreu em Secretária, de 2003.O início até que promete. Nicole Kidman faz a protagonista que trabalha como assistente do marido fotógrafo. Mãe de duas filhas, ela não está exatamente feliz - nem no casamento nem na profissão. Um incidente fortuito a aproxima do vizinho, na Nova York do fim dos anos 50, e ela imediatamente se lança à descoberta da identidade deste homem recluso. Lionel vive mascarado para esconder o corpo e o rosto coberto de pêlos. A heroína fica seduzida por seu mistério a ponto de negligenciar a família. E embarca numa relação de dependência.A preocupação com a beleza da imagem, na tentativa de ser fiel a Diane Arbus, gela um pouco (ou bastante) o trabalho do diretor. Mas Shainberg poderia ter-se saído ainda pior, se Nicole Kidman não tornasse minimamente atraente sua esposa insatisfeita. (Luiz Carlos Merten)A Pele (Fur, EUA/2007, 119 min.) - Drama. Dir. Steven Shainberg. Em grande circuito. Cotação: Ruim

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