<i>A Conquista da Honra</i> e os heróis humanos de Eastwood

Entra nesta sexta em cartaz o primeiro dos dois filmes rodados por Clint Eastwood mostrando pontos de vista opostos sobre o mesmo fato - a batalha de Iwo Jima, entre americanos e japoneses, durante a 2.ª Guerra Mundial. Estréia primeiro A Conquista da Honra, o ponto de vista americano, do vencedor. O ponto de vista dos japoneses, Cartas de Iwo Jima, tem estréia prevista para dia 16, completando assim o díptico. A primeira coisa a ser dita é sobre a grandiosidade do projeto. Se fazer um filme de guerra aos 76 anos de idade já não é fácil, imagine fazer logo dois. No entanto, todo o esforço valeu a pena. De certa forma, os filmes se realimentam e se comentam. Um serve como espelho ao outro, o que quer dizer que a experiência cinematográfica iniciada com A Conquista da Honra somente se completará com Cartas de Iwo Jima. Outro detalhe: não se trata de filmes de guerra quaisquer. Ambos são extraordinariamente bem filmados. Há tensão nas batalhas e antes delas. Mas é claro que, em se tratando de Clint, esse virtuosismo técnico é quase um desperdício. Porque o mais importante é o que o ocorre depois, com as conseqüências da guerra sobre a vida das pessoas que sobreviveram a ela. Foto ícone de Rosenthal De certa maneira, A Conquista da Honra é um filme sobre uma imagem, uma famosa fotografia da conquista da ilha. A foto, tirada por Joe Rosenthal para a Associated Press, mostra os seis rapazes fincando o mastro da bandeira sobre o topo de um monte. É talvez uma das imagens mais conhecidas nos Estados Unidos e serviu de estímulo patriótico num momento ainda duro dos combates. James Bradley, filho de um daqueles soldados imortalizados na foto de Rosenthal, é quem escreve o livro no qual se baseia o filme de Clint. Bradley entende que a imagem era conhecida mas a história não. Escreve para resgatar a memória daqueles soldados, do seu pai em particular, mas também a dos outros. O filme é sobre a recuperação da memória. E, nesse processo, coloca em questão a noção de herói. Bem, não existe frase mais batida do que aquela de Brecht sobre a precariedade das nações que precisam de heróis. Também não está provado que as nações possam dispensá-los. Sobretudo nações guerreiras como são os Estados Unidos. O espectador verá a fina carpintaria cinematográfica empregada por Clint para relativizar esses heróis norte-americanos, sem por isso deixar de respeitá-los. Há uma proposta interessante por aí: talvez, sim, necessitemos muito de heróis, mas a cada vez mais sentimos mais a necessidade de sabê-los gente como qualquer um de nós, comuns, sem nada de sobrenatural, nem muito menos dotados de poderes especiais como os super-heróis das histórias em quadrinhos. Heróis frágeis Os heróis de Clint Eastwood, pelo contrário, são frágeis que podem se entregar à bebida, se ressentem de participar de uma espécie de farsa patriótica, ou simplesmente sentem-se culpados por terem sobrevivido enquanto os amigos, alguns mais valorosos que eles, sucumbiram no campo de batalha. É essa "humanização" do herói, progressiva e implacável, que torna o filme de Clint tão notável e comovente. Há nele esse antibelicismo radical, que compreende o horror da guerra como um dia Goya compreendeu. Mas que entende também que há situações em que se bater é inevitável, lembrando aquela frase de Clausewitz sobre a guerra como sendo a política praticada por outros meios. Dessa "necessidade" da guerra como forma de as nações acertarem suas contas, dessa espécie de naturalização da carnificina sobra o aspecto humano, aquele que interessa ao artista. Esse é o humanismo radical de Clint. Ele é que dá o tom do projeto, da fotografia esmaecida, que tende ao preto-e-branco à dureza do combate mostrada sem qualquer disfarce. Na verdade, A Conquista da Honra é aquele tipo de filme que tira a emoção com a parcimônia de quem busca água no deserto. Por isso mesmo trabalha com sentimentos mais profundos. Essa densidade está inscrita na linguagem despojada do filme. A Conquista da Honra - ("Flags of Our Fathers", EUA/2006, 132 min.) - Drama. Dir. Clint Eastwood. 16 anos. Cotação: Ótimo

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