<i>300</i> chega aos cinemas brasileiros nesta semana

Finalmente estréia nesta sexta-feira, 30, no Brasil o filme 300 do diretor Zack Snyder, com Gerald Butler como Leônidas e Rodrigo Santoro como o rei Xerxes. Para quem perdeu os noticiários das últimas semanas o filme narra a batalha de 300 soldados espartanos contra uma incontável horda de persas no desfiladeiro das Termópilas, na Grécia em 480 a.C.. Baseado na obra de Frank Miller, 300 é o refinamento em filme daquilo que os quadrinhos de heróis têm de melhor: o choque dos extremos. O Homem-Aranha é a fantasia de Peter Parker. Clark Kent, do Superman. A vida tacanha é só uma desculpa para feitos extraordinários. A distância entre as identidades é parte daquilo que exerce tanto fascínio entre os fãs das mais variadas idades. No caso de 300 a equação é repetida, mas envernizada de história. Como ínfimos 300 homens puderam resistir contra mais de cem mil soldados por tanto tempo? O que forja o tipo de pessoa que prefere morrer a se render para um monstruoso inimigo? Perguntas que Snyder e seu elenco buscaram responder com empenho notável. O resultado é um filme menos pretensioso do que se podia esperar e mais interessado em amarrar uma boa relação de dualidade. Sem se perder em imensas descrições da paisagem ou dos atos dos personagens (o que seria fácil resvalar em se tratando de um épico), o filme faz do cenário um componente da narrativa e não sua ilustração, algo bem diferente. As Termópilas, uma estéril garganta no meio da Grécia, no filme, é o sulfuroso corredor que Leônidas escolhe para barrar o avanço do Império Persa. Talvez outro episódio da história não fosse tão dramático, menos ainda tão engenhoso. Nesse sentido, o filme leva o espectador a acreditar que a vitória dos espartanos é possível. E mesmo que não seja não diminui o tamanho da empreitada. Mais bravo varão Acrescentando algumas passagens inexistentes nos quadrinhos, o filme 300 tornou os espartanos mais "humanos", a despeito de toda uma mitologia contrária. De fato, mostra-se o árduo treinamento do jovem espartano desde seus 7 anos, com fome e frio, obrigado a espancar outros garotos até a morte. Deixado sozinho e submetido ao teste final de matar um gigantesco lobo, o próprio Leônidas é o mais bravo dos varões de Esparta. O que, no entanto, não o impede das mais tenras demonstrações de afeto por seu filho e amor por sua esposa. Ao filho dá lições de liderança e respeito. À mulher, compartilha suas preocupações e desejos. Difícil não simpatizar. Também fora dos quadrinhos, o filme complementa os momentos da batalha com outros, mostrando a rainha Gorgo, interpretada por Lena Headey, lutando pelos interesses do marido em Esparta. Uma monarquia relativamente democrática mostra-se que os mais altos valores de Esparta estão sob o risco da corrupção dos Éforos, velhos e traiçoeiros sacerdotes, e de sua assembléia, vendida aos persas por Dilios, personagem de Dominic West. Já os persas não fogem muito àquilo que Frank Miller definiu em seus quadrinhos. Exuberantes e ao mesmo tempo grotescos, os persas são terríveis conquistadores. Xerxes-Santoro, digitalmente com 3 metros e com voz de monstro, é o senhor "de mil nações", empenhado em conquistar aquela tribo tão rebelde quanto interessante. Depois de uma bela sova, Xerxes, em audiência com Leônidas, promete poder e riquezas sobre toda Grécia para o rei espartano. A única coisa que pede é que Leônidas se ajoelhe. "Não vai dar. Meu joelho dói por causa da batalha", diz o soberano de Esparta. O elenco, de forma geral, parece bem à vontade com seus trajes e personagens. Talvez devido ao respeito cada vez maior por obras consagradas dos quadrinhos ou então, basicamente, por serem desconhecidos. Com a chance de uma vida, os atores de 300 dão credibilidade a cenas em que enfrentam milhares de guerreiros multiplicados digitalmente com tenacidade visível em punhos e abdome marombados. "Eles praticamente nos treinaram do zero", disse David Wenham que interpretou o soldado cronista Dilios. "Ensinaram-nos a lutar e nos exercitavam todos os dias. Não era apenas uma questão de aprender os movimentos, mas de torná-los automáticos", explicou o ator sobre a rotina dos treinos. Elefante e rinoceronte improváveis É claro, como obra de ficção, 300 tem seus excessos. Mostra elefantes e rinocerontes de guerra, além de uma espécie de granada primitiva feita de cerâmica. A rigor, os ocidentais só veriam animais assim tão exóticos quando Alexandre da Macedônia conquistou os domínios persas por volta de um século depois. A pólvora, elemento básico de qualquer explosivo, só seria descoberta pelos chineses no século IX d.C.. Por outro lado, a descrição da ação das falanges espartanas é bastante precisa. Compostas de soldados com escudos que iam da coxa ao pescoço, este tipo de unidade militar seria a base do poder romano nos séculos seguintes. Na tela parece algo difícil. Em entrevista ao site SuperheroHype, Gerald Butler disse que na verdade o que mais o incomodou foi a capa. "Se você usa aquilo por 16 horas fica muito difícil. E a capa na verdade é bastante pesada", afirmou o ator com receio de desapontar quem o vê nas telas. Não se pode negar, certas cenas impressionam. O momento em que milhares de flechas voam em direção aos espartanos escondendo o sol é arrepiante. Mais ainda é o comportamento dos personagens, debaixo de seus escudos, gargalhando da sorte de terem uma morte tão heróica. A morte está próxima, mas ela é o prêmio máximo daqueles que não se arrependem. Especialmente numa batalha tão legítima. Alegorias políticas à parte (oriente X ocidente), 300 é uma grata surpresa do cinema, apesar (ou justamente) por se inspirar nos quadrinhos. Os extremos emocionam, e neste caso mostra seu potencial com uma elegância disfarçada de violência. Se outros épicos históricos como Alexandre, de Oliver Stone, ou Apocalypto, de Mel Gibson se perdem entre o discurso laudatório irrestrito ou a exacerbação pura da brutalidade, 300 supera a ambos com a desculpa de não se levar tão a sério.

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