Hugo Carvana ganha mostra em sua homenagem no Rio

Mostra Hugo Carvana repassa a carreira do ator e diretor que virou símbolo do malandro carioca sem querer

Patrícia Villalba, do Estadão,

07 Outubro 2023 | 17h59

"Ah, não, não me diga isso", reage Hugo Carvana num suspiro, quando descobre que o propósito da entrevista é repassar seus 70 anos de vida, mais de 50 deles vividos principalmente no cinema. Decerto, sabe que poderia virar a noite naquele bar do Leblon contando histórias. Do Dino de Vai Trabalhar Vagabundo (1973), seu personagem inesquecível, até o Belisário, da última novela, Paraíso Tropical. De Glauber Rocha a José Padilha. Do Rio de Janeiro dourado de Se Segura Malandro até a cidade vermelho-sangue de Tropa de Elite.   Veja também: Entrevista com o ator Hugo Carvana    Boêmio de ocasião que virou símbolo do malandro carioca sem querer, filho da chanchada e do Cinema Novo, Carvana fala sobre tudo isso. O resto é dar a sorte de estar de passagem pelo Rio e conferir a Mostra Hugo Carvana, que por meio dos seus mais representativos filmes repassa a carreira do ator e diretor no Centro Cultural da Caixa, de hoje ao dia 4 de novembro.   Com 50 anos de carreira, você vê nos filmes de hoje alguma influência do que já fez?   Não, acho que não. Até porque eu faço humor, filmes alegres. E a tendência hoje do cinema brasileiro é a dos filmes mais tensos e dramáticos. Eu poderia lembrar da Rosane Svartzman, que também faz humor. O cinema dela é um contraparente dos meus filmes, eles têm o mesmo DNA.   Será que ainda prevalece a idéia de que o humor é um gênero menor, de que só o drama pode ser intelectualmente respeitável?   É, pode ser. Lamento que os jovens cineastas já comecem sofrendo tanto, com esses filmes doloridos. Para muitos, o humor é uma coisa fácil, quando na verdade não é. E o drama permite que o artista faça um discurso em volta de sua obra. Geralmente os cineastas que fazem filmes pesados querem que sua obra seja revolucionária. O Cinema Novo era isso, o sonho era mudar o mundo. Um diretor cinematográfico se dá uma importância enorme. Dirigir um filme é uma coisa grandiosa, coordenar uma equipe de 80, 100 pessoas. Depois a adulação, as críticas, a imprensa. Tudo isso conduz à vaidade. E se o diretor não tiver cuidado, vai acabar acreditando em si mesmo. E a pior coisa que um artista pode fazer é acreditar em si mesmo.   Como você passou da chanchada para o Teatro de Arena e depois para o Cinema Novo?   Por sorte, eu estava nos lugares certos nas horas certas. Começou tudo na chanchada, que me despertou o desejo de ser ator. Daí, eu fui estudar, fazer uma escola de teatro. Dei um pulo, fui fazer teatro mambembe, viajei pelo Brasil. Por acaso, eu conheci o Teatro de Arena, de São Paulo, que estava fazendo testes para uma temporada no Rio. Eu não sabia, mas era um teatro revolucionário, propunha uma mudança radical na postura teatral. Ali me fiz homem, foi um salto das brincadeiras, da molecagem, para entender mais o homem, suas contradições. Naqueles anos, estou falando de 1958, 59, outro grupo de jovens no Rio tinha vontade de fazer um outro cinema. Esse grupo de jovens quando viu esse grupo de teatro ficou fascinado, se aproximaram. Foi meu terceiro movimento. O destino me chamou, e lá fui eu fazer o Cinema Novo.   Mas os filmes que você fez depois, já como diretor, eram mais próximos da chanchadas do que do Cinema Novo, não?   Aí, você já está me perguntando sobre o meu quarto movimento. Quando eu decidi dirigir, já tinha 20 anos de cinema. Quis o destino que a primeira história, de Vai Trabalhar Vagabundo, estivesse carregada de alegria. Depois, eu descobri que essa alegria vinha da chanchada. Vai Trabalhar Vagabundo (1973) começa com o personagem saindo da cadeia. Fiz esse filme em plena ditadura Médici onde, ao contrário, as pessoas entravam na cadeia. Além da alegria, da brincadeira, que era a chanchada, o filme escondia esse desejo autoral - confesso que não consciente. Foi emblemático o "bom dia, professor!". Eu seria falso se ficasse procurando a angústia, os amores incompreendidos. Meus amores são todos compreendidos. A fome passa longe dos meus filmes, apesar de o banquete não estar dentro deles também.   E A Casa da Mãe Joana, o último filme que você rodou, está pronto?   Estou no maldito processo de captação de recursos para a finalização. É um filme de finalização complicada, tem efeitos de computação gráfica. Se Deus ajudar, vou ter pronto no começo de 2008, para lançar no meio do ano.   Já tem projeto para filmar de novo?   Sim, Não se Preocupe, Nada Vai Dar Certo. Conta a história de um ator que anda pelo interior do Brasil mambembando, é um stand-up comedy. Ele tem um pai, um velho ator que é o seu empresário, um inferno na vida dele. Está no interior do Ceará, quando recebe uma proposta para ser ator na vida real, fingir ser alguém. Ele se assusta, porque a idéia de ser ator na vida real assusta todos nós atores. Ele acaba sendo acusado de um assassinato, todos os indícios levam a ele. Até que seu pai resolve interpretar um advogado, para livrá-lo da cadeia. Sempre que ele reclama desesperado, o pai diz: "Não se preocupe, nada vai dar certo. Então, não esquente a cabeça."   Lembro da abertura do Vai Trabalhar Vagabundo, em que o Dino diz "é preciso olhar com otimismo para o futuro". E, agora, "nada vai dar certo". Deixou de ser otimista?   Eu tenho obrigação de acreditar. Mas a cada dia que passa nesta minha vida de 70 anos, mais eu fico cansado dessa esperança, de esperar. Eu tenho que esperar que o homem mude e que a palavra solidariedade não seja uma palavra apenas, uma coisa de ONG. Digo solidariedade como luta, briga. Eu acredito muito em briga.   Você viu Tropa de Elite?   Vi. Não sou muito fã do filme não. Cinematograficamente é muito bem-feito. Mas não gosto da ideologia do filme. Não é que eu ache fascista, embora me incomode muito a supervalorização daquele personagem, aquele capitão. Mas ele é o resultado disso que eu estava te falando, é aquilo ali, a porrada.   Será que o Dino foi o carioca dos anos 70 e o Capitão Nascimento é o carioca de agora?   Ah, pode ser! Mas não, não acredito. Tem cariocas melhores, tem o Jaguar, o Lan, tantos e tantos. Mas, você tem razão, talvez para uma parte da população, o Rio precise do Capitão Nascimento, e é isso que me incomoda no filme. Ele representa a vingança. Mas o charme do Rio é uma arma de defesa enorme contra isso. Não é à toa que temos o Cristo Redentor abençoando a cidade, não é à toa que temos a Baía de Guanabara. É Deus e o Diabo na terra do sol.   Você encarnou um personagem que se tornou ícone de uma época, o malandro. Depois, você mesmo virou ícone, do próprio carioca, é uma referência na cidade. Sentiu-se aprisionado alguma vez por esse tipo de personagem?   Um pouco. Na verdade, não fiz nada para isso, infelizmente, a mídia carimba. E como eu fiz Vai Trabalhar Vagabundo, que teve tanta repercussão, me carimbaram de malandro e pronto. Eu fiz outros filmes que tinham esse DNA de malandro, um radialista louco em Se Segura Malandro (1977), no Bar Esperança (1982), um artista irreverente. Mas principalmente uma série de TV que eu fiz, Plantão de Polícia (1979), carimbou definitivamente a minha figura. Eu fazia um repórter policial do Rio que para descobrir fatos freqüentava o bas-fond. Agora, ninguém sabe que eu trabalho como um louco para produzir meus filmes. Todo mundo quer é tomar um chope comigo.

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