Lucy Nicholson/Reuters
Lucy Nicholson/Reuters

Hugh Jackman encara desafio de viver democrata exposto a um escândalo público

Ator estrela o filme 'The Front Runner'

Kathryn Shatuckk, The New York Times

05 Novembro 2018 | 06h00

Algumas celebridades estão em casa sob os holofotes; outras, nem tanto. Hugh Jackman pertence à primeira categoria, como deixou claro recentemente num banquete no West Village quando, muito à vontade, conversou e brincou com os presentes, encantando a todos. 

Já o último personagem do ator – o ex-senador Gary Hart, democrata do Colorado – não é definitivamente um amigo dos holofotes. Em The Front Runner, que estreia em 6 de dezembro, o diretor Jason Reitman narra as três semanas de 1987 em que a candidatura presidencial de Hart, o candidato favorito, implodiu quando jornalistas farejaram um suposto affair entre ele e Donna Rice. Não demorou para que a explosiva foto de Rice sentada no colo de Hart, perto do iate Monkey Business, fosse escrachada pelo tabloide National Enquirer

Hart e Rice negaram que tivessem um caso. Agora, no início do mês, a revista The Atlantic informou que Lee Atwater, o ex-gerente da campanha de George H.W. Bush, o candidato rival republicano, confessou ter armado uma arapuca para Hart. 

“Gary é por natureza uma pessoa reservada, alguém que acredita que deva haver separação entre a vida privada e a vida pública dos políticos”, diz Jackman. “O bom desse filme é que ele não dá resposta fáceis.”

Jackman, ao contrário, não parece alguém com preocupações existenciais óbvias, nem tem a suposta a aura de mistério esperada de um astro. Fora da tela, ele é o marido feliz da atriz Deborra-lee Furness e pai amoroso de um casal de adolescentes, Oscar e Ava. É também um cara que canta no chuveiro e diz que decide melhor dançando sapateado.

No dia 11, véspera de seu 50.º aniversário – que comemoraria com as panquecas da mulher antes de ir para o set filmar Bad Education, comédia sobre um desfalque num distrito escolar de Long Island – Jackman falou de política e privacidade, do que vem depois do sucesso de O Rei do Show e de por que sua vida é cada vez melhor. 

Como é fazer Gary Hart? 

Dá uma certa ansiedade, mas do tipo bom. Gary é misterioso, fechadão, difícil de definir. Ele mesmo diz que as pessoas o acham “frio e distante”. O filme traz também para mim a novidade de fazer o papel de alguém ainda vivo. Acredito firmemente que histórias como a de Hart ajudem as pessoas a entender como somos vistos no mundo e como seremos lembrados. Quero que ele saiba que levo isso muito a sério. 

Presidentes tiveram casos antes de Hart, mas a mídia geralmente não os perturbava. O que mudou? 

Esse caso marcou realmente uma reviravolta, particularmente no relacionamento entre imprensa e políticos. A vida privada começou a ser vista como um importante indício de bom ou mau-caratismo. Eleitores e imprensa passaram a usá-la como parâmetro de capacidade de liderança. As portas foram escancaradas. A presidência dos EUA é o cargo mais importante do mundo, e você vai examinar o caráter do candidato para deduzir se ele vai cumprir o que promete. Para mim, no entanto, o modo como políticos lidam com o casamento não é tão importante.

Em 2017, com Logan, seu Wolverine recolheu definitivamente as garras, após 17 anos de estrada. Você teria atribuído a decisão de não fazer mais o personagem a algo que Jerry Seinfeld lhe disse?

Eu perguntei a ele sobre o fim de Seinfeld e ele disse: “Não devemos permitir que o cansaço ou a rotina abalem nossa criatividade. Devemos sair antes que a fórmula se esgote”. Percebi imediatamente que era hora de parar com Wolverine.

Depois disso você fez seu projeto do coração, O Rei do Show, sobre P.T. Barnum, um sucesso de bilheteria. Está prevista uma versão para a Broadway?

Não sei. Não há nada definido, mas há muita gente imaginando como seria uma versão ao vivo. Seria algo no West End? Em Las Vegas? Seria num circo? Seria numa arena espetacular? O que seu sei é que funcionaria num teatro. Simplesmente conheço o potencial da história. Vi Keala Settle no centro de um salão cantando This Is Me. Não houve quem não enxugasse lágrimas. 

Poderia ser uma sequência? 

Como disse, há muitas ideias em estudo, mas não sei o que vai sair. 

Como é chegar aos 50?

Para mim, a vida está cada vez melhor. Muita gente fala da força da juventude, de como os jovens acham que o mundo está a seus pés. Comigo nunca foi assim. Eu era mais inseguro quando jovem do que agora. Mas um pouco de insegurança é bom, faz você se esforçar mais. 

Há algo que você gostaria de fazer, mas acha que ainda não está pronto?

Humm, não. Como estou promovendo este filme sobre um candidato à presidência, as pessoas parecem querer perguntar: ‘Uau, você vai se candidatar a primeiro-ministro da Austrália (Jackman é australiano)?’ Não vou (risos). Não consigo me imaginar num cargo em que, no dia em que você assina o contrato, 60% do país passa a odiá-lo. 

É difícil imaginar 60% da população de qualquer país odiando você. Ao contrário: 20,8 milhões de seguidores adoram vê-lo zombar de si mesmo no Instagram. 

Tento viver numa boa. É meu jeito aussie (australiano) de não levar as coisas muito a sério. Sei que a regra para um astro de cinema é que ele seja algo misterioso, não como ele realmente é, mas não ligo. Para representar, prefiro o cinema ou o palco.

/ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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