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Hugh Jackman e os limites da fúria

Ator mostra lado destrutivo da violência em 'Os Suspeitos', drama sobre garotas sequestradas

Elaine Guerini - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2013 | 19h49

Em outra edição do Oscar, sem Daniel Day-Lewis entre os candidatos ao prêmio de melhor ator, Hugh Jackman provavelmente teria sido o vencedor da estatueta pelo denso retrato de Jean Valjean, o prisioneiro condenado por roubar pão no musical Os Miseráveis. “Com o imbatível Daniel na briga deste ano (por Lincoln), nem precisei preparar um discurso de agradecimento”, disse Jackman, rindo. Talvez o australiano de 45 anos tenha mais sorte na edição de 2014 do prêmio da Academia, para a qual já desponta como um dos prováveis indicados.

Sua performance em Os Suspeitos, em cartaz nos cinemas, colhe elogios desde a première do thriller na 38.ª edição do Festival de Toronto. Dirigido pelo canadense Denis Villeneuve – indicado ao Oscar de filme estrangeiro por Incêndios, em 2011 – Jackman dá humanidade a um papel ambíguo: o do pai desesperado com o desaparecimento da filha durante o feriado de Ação de Graças. Por considerar a investigação policial morosa e ineficiente, ele mesmo decide lidar com o suposto autor do crime (Paul Dano), um rapaz mentalmente desequilibrado encontrado no local do sumiço da menina. “O que o pai faz não é correto, mas quem pode culpá-lo ao imaginar as coisas terríveis que podem acontecer com garota de cinco anos?”, afirmou na mostra canadense.

Nas mãos erradas, seu personagem em Os Suspeitos poderia glorificar a violência, o que daria ao espectador uma desculpa para não sentir empatia por ele. Mas isso não acontece, deixando a plateia dividida e desconfortável o tempo todo.

Como pai (de duas crianças adotadas, Oscar, de 13 anos, e Ava, de 8 anos), eu me coloquei no lugar do personagem, imaginando a frustração de saber que ninguém estava fazendo nada. Pelo pai ser um ex-alcoólatra, ele está obcecado em controlar a sua vida. Só esperar por notícia da filha é a morte para ele.

Vê o filme como um contraponto em sua carreira, por ter atuado em filmes onde a violência ganha aura cult, como Wolverine e os longas de X-Men?

Foi revigorante participar de uma produção que mostra a violência como ela é, como algo destrutivo e doente. Ainda que Os Suspeitos funcione comercialmente por lembrar um jogo de gato e rato, com muitas reviravoltas, o que salta aos olhos é o drama da família que tem a filha desaparecida, com tudo o que há de mais assustador na situação.

Numa das melhores cenas, seu personagem sofre ao imaginar o que se passa pela cabeça da filha, caso esteja viva. Ela não deve entender por que o pai não está lá para salvá-la...

Durante a pesquisa que fiz junto a famílias que recuperaram crianças desaparecidas, esse aspecto foi o que mais me tocou. Um pai me contou que essa ideia era a que mais o aterrorizava. Por isso, considero Os Suspeitos um filme tão corajoso. Ele permite que os personagens digam o que ninguém quer ouvir.

No início da carreira, você dizia que não saía satisfeito do set, achando que poderia ter feito melhor. E hoje?

Aprendi a resolver a questão no set. Quando acho que não atingi o ponto, digo na hora e peço para repetir. Há diretores que não gostam de fazer mais tomadas por acharem que é insegurança do ator. Mas, às vezes, é necessário.

Isso aconteceu durante a filmagem de Os Suspeitos?

Não. Aqui foi o contrário. Após rodarmos inúmeras vezes a cena em que eu ameaço o personagem de Paul Dano com um martelo, Denis veio caminhando na minha direção com um sorriso no rosto. Eu jurava que ele ia dizer: “Conseguimos”. Mas não. Ele disse: “Hugh, preciso de muito mais intensidade”.

O que você fez para chegar ao resultado visto nas telas?

Para mostrar que meu personagem estava perdendo o controle, afundei o martelo na parede (risos). O designer de cenário não sabia que eu faria aquilo. Muito menos Paul. O que mais me espantou foi a confiança de Paul. Apesar de o martelo ter passado a centímetros de sua cabeça, ele não se mexeu um milímetro sequer. Por sorte, Denis ficou satisfeito com a tomada. Do contrário, eles teriam de reconstruir a parede (risos).

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