HQs de Mutarelli migram para telas e palco

Leia Lourenço Mutarelli, qualquer coisa. Esse conselho pode parecer temerário, se o interlocutor não gosta de ler - e menos ainda histórias em quadrinhos, que é o métier do sujeito em questão. Pois então vai poder, logo mais, assistir a Lourenço Mutarelli. Apontado por unanimidade como um dos maiores autores brasileiros do gênero, autor de nove fabulosos álbuns em quadrinhos (dos quais o mais recente, Nada de Novo e Tudo Outra Vez, saiu em dezembro pela Devir Editora), Lourenço Mutarelli terá seu primeiro romance, O Cheiro do Ralo, adaptado para o cinema pelo diretor pernambucano Heitor Dália (roteirista de As Três Marias). E também uma fera do teatro, do diretor Felipe Hirsch, fala em adaptar uma das histórias de Mutarelli para o teatro e para o cinema.Ainda assim, o cartunista está magoado com o mundo dos quadrinhos e diz que vai "dar um tempo" nessa mídia. "Resolvi que esse ano não vou fazer quadrinhos, vou fazer greve", brinca o autor. "Quero expandir meus horizontes". Ele diz que estava vivendo uma situação-limite na parte financeira e que as novas atividades, no cinema e no teatro, estão anos-luz daqueles apertos do passado.Mutarelli tem suas razões para o desânimo. O trabalho mais recente, que ele levou cinco anos para fazer, teve pouca repercussão pública - embora amado pela crítica. Mas outra história premiada do autor, O Dobro de Cinco, terá lançamento na Espanha esse ano.Mutarelli lançou O Cheiro do Ralo, seu primeiro romance, em setembro. No lançamento, reuniu na Fnac um time respeitável de amigos: o escritor Valêncio Xavier, colunista do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba e com livros publicados pela Companhia das Letras; o poeta e escritor Glauco Mattoso, publicado pela Ciência do Acidente e outras editoras independentes; e também o escritor Ferréz, premiado autor de Capão Pecado - e que atualmente trabalha no livro Manual Prático do Ódio e no seu primeiro CD, Mendes.Valêncio Xavier comparou Mutarelli a António de Alcântara Machado. "(...) Faz uma descrição visual com uma prosa urbana moderníssima, que podemos chamar de um neo-realismo citadino, e ao mostrar o dia a dia do Zé Povinho paulistano, nos dá uma visão do povo brasileiro, mas sem apelar para o populismo."O escritor Marçal Aquino, admirador do trabalho de Mutarelli, indicou O Cheiro do Ralo para o cineasta Heitor Dália, que adorou. O diretor Felipe Hirsch tem muitos planos também para o quadrinhista. Mas bom mesmo é torcer para que ele volte aos quadrinhos, porque é ali que nascem os delírios de um artista completo.

Agencia Estado,

12 de janeiro de 2003 | 15h32

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