"Hotel Ruanda" retrata guerra étnica no país

Terry George começou carreira como produtor e roteirista dos filmes de outro irlandês, Jim Sheridan, com quem fez, por exemplo, Em Nome do Pai (1993) e O Lutador (1995). Ele estreou na direção com Mães em Luta (1994). Hotel Ruanda é seu terceiro longa-metragem. George esteve em São Paulo e recebeu a reportagem do Estado em um hotel no bairro do Itaim para falar sobre o filme.Acostumado aos dramas pessoais que se confundem com os dramas políticos de países inteiros, ponto de encontro da maior parte dos filmes que produziu, escreveu e dirigiu na Irlanda, George parte para uma experiência completamente nova em Hotel Ruanda. Por meio da história de Paul Rusesabagina (Don Cheadle), gerente de um hotel de luxo que salvou mais de mil pessoas durante a guerra étnica de 1994 em Ruanda, ele fala sobre uma das mais maiores tragédias da História recente, embora não consiga afastar a sensação de que suas intenções foram melhores do que o resultado atingido na tela.Por que Ruanda? Eu queria fazer um filme sobre a África. Trabalho na indústria de Hollywood e eles evitam ativamente qualquer coisa substancial sobre o continente. Estava escrevendo um outro roteiro quando a história de Paul Rusesabagina chegou até mim através do roteiro de Keir Pearson. Percebi que a história dele me daria a possibilidade de dizer o que eu queria sobre os africanos e sua coragem. Não me concentrei em Ruanda, mas a história de Paul Rusesabagina me serviu como veículo para explicar uma das grandes tragédias do século 20.O genocídio em Ruanda. É um dos episódios mais vergonhosos do Ocidente não só em termos de omissão, mas de manipulação também. Foi um ato selvagem de magnitude incompreensível. Entre 800 mil e um milhão de pessoas morreram. A maior parte dessas pessoas foi morta a golpes de facão e instrumentos usados nas fazendas, o que quer dizer que pelo menos meio milhão de pessoas participou disso. É um genocídio sem precedentes.Qual era a familiaridade que tinha com essa história antes? Quando a guerra civil em Ruanda estourou, em 1994, eu estava filmando ou preparando Mães em Luta na Irlanda. E a cobertura britânica era um pouco melhor do que do resto da Europa e dos EUA. Porque a maior parte dos jornalistas fugiu, mas uma equipe da BBC ficou e pôde revelar o genocídio para o mundo. Eu ouvi um pouco, mas não o bastante. Foi só quando eu comecei a ler sobre a África que conheci a verdadeira natureza do que havia acontecido.Você vê alguma semelhança entre a história que contou sobre Ruanda e as histórias que havia contado em seus filmes sobre a Irlanda? Ruanda era uma sociedade em que os extremistas políticos usavam medo e ódio étnico para polarizar a população e, através da propaganda, fomentar a violência. Era a minoria tutsi versus a maioria hutu. Vi muitos paralelos com a luta entre católicos e protestantes. Também venho de uma sociedade dividida e isso me deu a noção de que as divisões na superfície - tutsi e hutu, protestantes e católicos - são muito mais simples do que a análise política da situação, que é complicada. A semelhança está na manipulação do medo pelo extremistas. É uma economia de subsistência: se você rouba a minha terra, você está roubando a minha vida.Há uma diferença muito clara entre seus filmes sobre a Irlanda e esse, que está no uso da emoção? Poderia explicar por quê? Primeiro, havia algumas restrições que eu havia me colocado. Uma delas é que eu não ia mostrar violência extrema. Eu queria atingir o maior e mais amplo público, especialmente os jovens, pessoas que não querem ir ao cinema ver violência na tela. Fui acusado de propaganda nos filmes que fiz, mas este é o filme mais panfletário que fiz. Mas é uma propaganda pela paz e pelo humanismo.

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