ReutersSarah Meyssonnier
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Horror de ‘Titane’, Palma de Ouro em Cannes, chega ao streaming

Longa que foi exibido no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo no ano passado gera polêmica por cenas de violência

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

27 de janeiro de 2022 | 15h00

Desde a consagração de Titane em Cannes, na briga pela Palma de Ouro de 2021, em julho, sua protagonista, a jornalista e atriz Agathe Rousselle, encara reações das mais diversas - às vezes, espanto; às vezes, menosprezo; por vezes, ironia. Tem de tudo, menos indiferença, sobre o fato de sua personagem, a assassina Alexia, engravidar de um carro. Até o cineasta italiano Nanni Moretti fez um comentário malicioso com essa premissa do thriller dirigido pela cineasta francesa Julia Ducournau. Thriller que chega nesta sexta-feira, 28, ao Brasil, diretamente à plataforma Mubi, após exibições na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio, onde houve debandada de espectadores em meio a cenas de violência. Foi assim também na Croisette e em San Sebastián. Agathe até já se acostumou. 

“Monstros assustam. Este filme é um monstro. Ele é um monstro na medida em que ele é livre. Na ficção, todos os monstros querem ser livres. Eles anseiam pela liberdade. Titane é um grito de liberdade no cinema francês. Um manifesto para que o nosso cinema não seja burguês. Não seja dependente da palavra. Não seja uma redundância da Nouvelle Vague”, explica Agathe em entrevista ao Estadão em San Sebastián, na Espanha, onde o longa foi projetado fora de competição. “Aceitar-se monstro é libertador. Entendi isso quando eu vi meu corpo todo transformado para este filme. Já na leitura do roteiro de Julia essa liberdade aparecia.”

 Desde a vitória da neozelandesa Jane Campion com O Piano, em 1993, uma mulher não era agraciada com a Palma de Cannes. Julia foi a segunda a conquistar o prêmio em 74 anos de história do festival. Para alguém que aposta no ativismo antissexista, como Agathe, fazer parte de um projeto com esse grau de representatividade histórica foi uma vitória pessoal. Mas há outros aspectos a serem comemorados em relação ao troféu dado a Titane por um júri presidido por Spike Lee. 

“Não há o que se questionar acerca da relevância simbólica da representatividade dessa Palma para as mulheres, mas existe um debate de gênero no filme que passa pela questão da aceitação. A aceitação das diferenças. É um filme onde o público aprende a se afeiçoar por uma serial killer que assume a identidade de um menino para estabelecer uma relação amorosa com um homem em quem ela encontra aquilo que busca por toda sua vida: aceitação. Titane celebra a gente saber aceitar o outro. Até a gente saber aceitar narrativas que fujam do controle das normas que impuseram à gente”, diz a atriz, referindo-se à polêmica que o filme despertou, polarizando opiniões por suas ousadias. 

Já na Croisette, as reações ao longa dividiram-se num “Amei” x “Odiei”. Houve gente deixando a sala de exibição quando Alexia bate o próprio rosto contra uma pia, a fim de deformar seu nariz. Deformar-se é parte da reinvenção pela qual ela passa quando assume, sem culpa, seu instinto assassino, dando um ponto final à existência de homens que passam dos limites na aproximação a ela e dando adeus a mulheres que não reagem bem a seus carinhos. 

E ela mata usando um pau de cabelo como arma. É indigesto (para alguns) torcer por ela. E mais indigesto ainda é lidar com a brutalidade que a cerca. Mas a indigestão maior vem quando ela começa a expelir óleo diesel pelas pernas, num sinal de que engravidou, após transar, sem preservativo, com um carro. “Encaramos aquela cena de sexo como a perda da virgindade. É alguém que, quando menina, sofreu um acidente e recebeu uma placa de titânio na cabeça. Moça, ela sente que um carro atiça sua libido. Era uma transa que precisávamos representar com violência, para expor como a primeira vez machuca”, diz Agathe, ciente de que as peculiaridades da trama afastam parte do público. “É curioso saber como vocês no Brasil vão receber o filme, ao acolhê-lo aí via streaming. É uma nova forma, receber uma experiência dessa em casa, no celular até. Mas são novos tempos. São tempos monstros. Como disse: há de se estar livre.” 

Nas bilheterias da França, o longa não foi um fenômeno: por lá, vendeu pouco mais de 303 mil ingressos. Mas, segundo Daniela Elstner, diretora-geral da Unifrance, a entidade do Ministério da Cultura da França que ajuda a exportar o audiovisual daquele país, sua carreira internacional é forte: “O filme de Julia vem fazendo uma sólida carreira em países de língua inglesa e sua premiação gerou muito barulho em prol de nossa indústria”. 

“A gente construiu uma experiência do zero que festejasse as potências do corpo. Essa nossa experiência agora vai para o streaming, o que pode ser bacana. Veja o que o David Fincher tem conseguido fazer com a Netflix. Deve ser bom chamar amigos para ver Titane em casa com a gente”, disse Agathe, comemorando a parceria com Vicent Lindon, hoje um dos maiores atores de seu país. 

Na trama, o ator vive um veterano bombeiro cujo filho desapareceu ainda menino. Ao ver na TV uma reportagem sobre o desaparecimento, com um desenho especulando as feições que o garoto teria hoje, Alexia decide assumir a identidade dele. Para isso, resolve transicionar, disfarçando os seios e cortando os cabelos. Mas seu problema está na gravidez, na barriga que não para de crescer. 

“O corpo é o atestado de todas as nossas verdades”, diz Agathe. “A partir do corpo, provamos da dor, do prazer, da brutalidade e do acolhimento.

 

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