Danny Moloshok/Invision/AP
Danny Moloshok/Invision/AP

Homens que acusam Michael Jackson de abuso são ovacionados no Festival Sundance

Wade Robson, que diz que Michael Jackson abusou dele dos 7 aos 14 anos, e James Safechuck subiram ao palco do festival de cinema Sundance após a exibição do documentário 'Leaving Neverland'

Lindsey Bahar, AP

26 de janeiro de 2019 | 17h37

Não é incomum plateias do Sundance Film Festival aplaudirem de pé. O ato, porém, ganhou nesta sexta-feira, 25, um ar de solenidade quando dois homens que acusam Michael Jackson de tê-los molestado quando garoto subiram ao palco após a exibição de Leaving Neverland, um documentário no qual contam suas histórias.   

Wade Robson, que diz que Jackson abusou dele dos 7 aos 14 anos, e James Safechuck cresceram mantendo as acusações após a morte de Jackson, em 2009. 

O filme de quatro horas, que será veiculado em duas partes no Channel 4 britânico e na HBO nesta primavera, é um abrangente relato sobre como as vidas dos dois e a de Jackson se entrelaçaram no auge da fama do artista, nos anos 1980 e início dos 90, e de como mais tarde, já adultos, o que aconteceu em sua juventude começou a emergir de modo preocupante. 

Além dos relatos dos próprios Robson e Safechuck, o filme traz também entrevistas com seus familiares, incluindo mães, esposas e o irmão e a irmã de Robson. A voz de Jackson é ouvida em mensagens de voz deixadas para Robson e numa 'entrevista' que Safechuck fez com Jackson em seu avião particular. O filme mostra também alguns dos muitos fax que o cantor mandou para Robson. 

“Não podemos mudar o que aconteceu conosco nem podemos fazer nada contra Michel”, disse Robson num bate-papo com o público. Mas ele espera que as revelações da dupla possam fazer com que outras vítimas do cantor se sintam menos isoladas e que sirvam de alerta a todos que tenham filhos.

Shafechuck ressalvou que eles não foram pagos para participar do documentário, nem esperam lucrar algum coisa com ele. Em declaração divulgada na própria sexta-feira, o espólio de Jackson condenou duramente o filme, qualificando-o de “aquele tipo de asssassinato de reputação que perseguiu Jackson durante a vida e volta a persegui-lo na morte”. Os responsáveis pelo espólio acusaram Robson e Safechuck de “perjúrio”, aludindo a declarações juramentadas que deram quando Jackson ainda estava vivo nas quais afirmavam que ele não os havia molestado. 

Robson, um coreógrafo que trabalhou com Britney Spears e outros artistas famosos, foi testemunha de defesa de Jackson num julgamento de 2005 que terminou com a absolvição do pop star em acusações de assédio.

“O filme pega acusações não confirmadas de coisas que  supostamente ocorreram 20 anos atrás e as trata como fato”, disse o espólio. A declaração acusa os produtores do filme de confiarem fortemente nas histórias de dois homens e ignorarem outros relatos segundo os quais Jackson nunca fez mal a crianças.

A AP não costuma identificar pessoas que se dizem vítimas de assédio sexual a não ser que elas venham a público, o que Robson e Safechuck fizeram de várias formas.  

Leaving Neverland vem sendo denunciado pelo espólio e por fãs de Jackson desde que o projeto foi anunciado, no início deste mês. Jackson foi absolvido de acusações de molestação em 2005 num caso que envolveu outro jovem. Robson testemunhou nesse julgamento dizendo que dormira muitas vezes no quarto de Jackson e ele nunca o molestou. Safechuck deu declarações semelhantes a investigadores quando criança.

Então, em 2013, Robson entrou com processo dizendo que o estresse e o trauma que vinha sofrendo o obrigaram a encarar a verdade de que fora abusado sexualmente por Michael Jackson. Safechuck entrou com processo semelhante no ano seguinte. Os dois processos foram arquivados por razões técnicas e o juiz não chegou a avaliar o mérito das acusações. 

O diretor de Leaving Neverland, Dan Reed, disse que estava se aventurando em território novo ao abordar um personagem do entretenimento em lugar de seus temas costumeiros, como terrorismo e crime. Ele disse a Robson e Safechuck , que consultaram inúmeros advogados ao longo dos anos anos, para falarem com ele como falariam com uma pessoa comum das ruas, sem se preocupar com contradições. Reed entrevistou Robson por três dias e Safechuck por dois antes de decidir que queria ouvir também as mães dos dois.

“Eu sabia que tínhamos alguma coisa realmente grande”, disse Reed. Safechuck e Robson disseram que foi incrível estarem juntos durante todo o processo. “Era tudo que queríamos durante os últimos seis anos, podermos falar e nos comunicar”, disse Robson. Safechuck acrescentou: “Estar conectado com alguém que também passou por isso é espantoso”. 

O filme vem provocando controvérsia desde que foi anunciado, há apenas algumas semanas. O espólio de Michael Jackson diz que ele só faz “remexer em acusações desacreditadas”. Temia-se que antes da primeira exibição houvesse grandes manifestações do lado de fora do Egyptian Theater e a polícia de Park City reforçou a segurança, mas apenas um pequeno grupo apareceu portando cartazes em que a palavra “inocente” saía da boca de uma foto de Jackson.

No bate-papo com Robson e Shafechuck, alguém da plateia disse que muitos fãs de Jackson não acreditavam neles e perguntou se tinham algo a dizer a esses fãs. “Não creio que haja alguma coisa a dizer, exceto que compreendo que é mesmo difícil de acreditar”, disse Robson. “De certo modo, há não muito tempo eu estava na mesma posição que eles. Mesmo tendo acontecido comigo, eu me recusava a acreditar. Às vezes ainda duvido que o que Michael fez comigo tenha sido uma coisa ruim. Há certas coisas que só podemos aceitar e compreender quando estamos prontos.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZZ      

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