Homenagens e debates destacam relevância do festival de cinema latino

Evento faz tributo ao brasileiro Sílvio Tendler, nesta segunda e, na terça, será a vez do argentino Pablo Trapero

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2014 | 02h00

E o 9.º Festival de Cinema Latino-americano realiza hoje duas importantes atividades. Às 19h30, no Cinesesc, o Cinema da Vela reúne dois autores, um brasileiro (Cristiano Burlan) e uma cubana (Irene Gutiérrez) para debater as novas propostas de linguagem do cinema continental. Às 21 horas, na Praça Cívica do Memorial, haverá a homenagem a Sílvio Tendler. No ano passado, Tendler já foi homenageado no Cine PE, com uma Calunga especial por sua carreira. Se os 2 milhões de espectadores que teve seu documentário sobre os Trapalhões podem ser creditados à popularidade de Renato Aragão, o público de Os Anos JK (800 mil pagantes) e Jango (1 milhão) é mérito do próprio Tendler, que forneceu ao documentário brasileiro seus maiores êxitos.

Não só de público – Jango virou o filme emblemático das diretas já. Há 30 anos, por todo o Brasil, houve um clamor pela redemocratização. Centenas de milhares de pessoas ocupavam as ruas de São Paulo, do Rio, de Porto Alegre, do Recife – do País inteiro. Fafá de Belém cantava o Hino Nacional a capela, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva subiam juntos no mesmo palanque. Tendler captou o momento. O filme narra detalhes do golpe e da resistência à ditadura. Encerra-se com a morte do ex-presidente João Goulart no exílio e as imagens censuradas de seu funeral. Quem nunca se emocionou com Milton Nascimento cantando Coração de Estudante? É maravilhoso.

Em dezembro de 2011, Sílvio Tendler ingressou num pesadelo. Acordou tetraplégico. Submeteu-se a uma cirurgia de alto risco. “Virei um sobrevivente de mim mesmo”, ele define. A dificuldade de locomoção não se refletiu na cabeça, que continuou a mil. Tendler renovou seu apetite de viver, de filmar. Pouco antes, em 2009, lançara Utopia e Barbárie. Por incluir um depoimento da então candidata Dilma Rousseff, ele provocou uma reação somente um pouco menos veemente que o filme de Fábio Barreto sobre a trajetória de Lula. Ambos foram considerados peças eleitorais e tratados, de certa forma desqualificados, como tal. Talvez os filmes de Tendler não sejam militantes, mas engajados. O novo filme, exibido do Festival Latino, quebra um tabu. Depois de denunciar a tortura e a repressão e investir contra os agrotóxicos (O Veneno Está na Mesa), Tendler é o homem com autoridade para retratar os militares da democracia, aqueles que disseram não.

A homenagem do Festival Latino será outro momento emocionante como aquele que Tendler viveu no Recife, ao receber sua Calunga de Ouro. Talvez não dê tempo de correr do Cinema da Vela para a Praça Cívica do Memorial, mas o cinema de Tendler, por mais engajado que seja em questões humanas, políticas e sociais, se ocupa também da linguagem, porque como artista ele precisa dominar sua mídia para veicular suas ideias. Cristiano Burlan e Irene Gutiérrez, que debatem esta noite as novas linguagens, dominam suas ferramentas. Ele já disse ao Estado que não reconhece fronteiras entre documentário e ficção. Mas foi um documentário que lhe deu projeção – Mataram Meu Irmão. Como diretor de teatro, sua trupe e ele – a Cia. dos Infames – apresentam atualmente o espetáculo A Vida de Homens Infames.

No Festival Latino, ele estreou seu Hamlet, que pode até não ser para todos os gostos, mas é intrigante por seu diálogo entre cinema e teatro, que também está na Vida (dos Homens Infames). O filme de Irene, feito em parceria com Javier Labrador, chama-se Hotel Nueva Isla. Pode-se atribuir um sentido metafórico à figura desse velho que trabalha com demolição. Jorge é um trabalhador solitário. Com sua cachorra, ele vai demolindo esse hotel em ruínas, e é grande a tentação de ver no hotel a própria ilha de Fidel Castro. Ele demole – para reconstruir? Jorge é um artesão. Tem essa companheira que quer comprometê-lo, no sentido de viver com ele, mas Jorge resiste.

Premiado em Sundance, Hotel Nueva Isla é um filme de baixíssimo pressupuesto (orçamento) – US$ 40 mil. Foi feita uma preparação de um ano e depois outro ano de filmagem. Jorge Reyes, que faz o protagonista, não é ator. Sabemos pouco sobre ele, em cena, mas na verdade sabemos o suficiente. Não ocorre muita coisa. Nada pode ser tudo. Há uma pegada parecida com a de O Transeunte, de Erik Rocha. No final, a surpresa. O filme é dedicado a Jorge, que morreu no ano passado. A diretora disse uma coisa linda – “Ele viu o filme e me confessou que o tinha feito para confrontar seus medos. E acrescentou que já podia morrer.” O festival tem exibido belos filmes – Matar a Un Hombre, de Alejandro Fernández Almendras, também premiado em Sundance. Amanhã, homenageia o argentino Pablo Trapero. A latinidade resiste.

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