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'Homem Comum' renasce em nova versão mais enxuta

Carlos Nader conta o que mudou no documentário que venceu o É Tudo Verdade de 2014

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

10 de setembro de 2015 | 03h00

Passou-se quase um ano e meio desde que Homem Comum, de Carlos Nader, venceu a competição brasileira do É Tudo Verdade no ano passado. Durante quase um ano, Nader tentou fazer o lançamento, sem êxito. E, então, o distribuidor e exibidor Adhemar Oliveira, do Espaço e do Arteplex, viu o filme e gostou tanto que tomou a peito a tarefa de resgatar o documentário do seu ineditismo. Oliveira aproximou Nader de Sílvia Cruz, leia-se distribuidora Vitrine, e apadrinha a estreia dessa quinta-feira. Homem Comum está entrando em oito praças - além de São Paulo, Rio, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre. Na próxima semana, o filme entra também em Santos. Mas não é exatamente o filme que venceu o É Tudo Verdade.

Ficou melhor? Se você já viu, no festival de Amir Labaki, a versão anterior, é bom conferir a nova. Não se pode dizer que houvesse coisas sobrando, mas o novo Homem Comum ficou mais enxuto - com 84 minutos. Nader suprimiu 13, reduzindo drasticamente, mas não eliminando, a filmagem de Londres. Na época, ela surgira como uma solução ‘ex machina’. Recapitulando - durante 20 anos, Nader acompanhou um caminhoneiro, o homem comum do título. O filme nasceu curto, um documentário sobre caminhoneiros, no plural, que Nader selecionava e entrevistava na estrada.

O curta não foi bem recebido. Causou estranhamento. Nader veio da videoarte, e a secura do filme não era exatamente o que se esperava dele. Algo havia no método de Eduardo Coutinho, e Nader virou, com a facilidade que tem a imprensa (a crítica?) para colar etiquetas, o ‘discípulo’ de Coutinho, coisa que ele nunca se considerou. Mas Coutinho viu o curta e gostou. Acompanhou o processo do longa. Tornaram-se amigos. No final dos anos 1990, Nader já acompanhava há anos o caminhoneiro Nilson de Paula. Quando a mulher de seu protagonista morreu, o próprio filme parecia ter morrido.

Foi nesse quadro que Nader foi à Sala Cinemateca, ainda na Fradique Coutinho, para ver um filme de Andrei Tarkovski que não conhecia - O Sacrifício. “Cheguei lá e o programa havia mudado. Passou A Palavra, de Carl Theodor Dreyer. Tive uma revelação. O filme precisava ressuscitar.” Iniciou-se aí outra batalha. A da compra dos direitos do clássico de Dreyer. “É um dos 50 maiores filmes de todos os tempos segundo a lista do British Film Institute, acho que o 23.º. Para os dinamarqueses, é um filme sagrado. Os detentores dos direitos não quiseram vendê-lo. Mas eu precisava do filme e resolvi filmar um pastiche em Londres. Filmei e, ao regressar ao Brasil, descobri que os dinamarqueses estavam me vendendo os direitos. Resolvi usar os dois, mas depois achei melhor reduzir a parte de Londres.”

São cerca de 25 minutos de A Palavra, todo o começo, o fim e uma parte do meio que prepara a ressurreição. “Era um dos filmes preferidos do Coutinho, e para falar a verdade, Últimas Conversas se chamava Palavra durante toda a filmagem, só depois da morte de Coutinho foi rebatizado.” 

Embora lhe pareça uma honra imensa ser relacionado a Coutinho, Nader não se encaixa no rótulo de discípulo. “O próprio Coutinho dizia que tínhamos inquietações comuns, mas métodos diferentes. E ele me pediu para usar uma pergunta na enquete dos caminhoneiros - você não acha que a vida pode ser absurda?”. É o tema do belo Homem Comum. O sentido da vida, a ressurreição. Em outro documentário que Nader fez depois - A Paixão de JL -, sobre José Leonilson, o artista revive por meio de sua obra. “É uma coisa cristã mesmo. Minha família foi sempre religiosa e isso ficou, ainda mais depois do filme do Dreyer”, ele destaca.

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