"Homem-Aranha" provoca emoções de montanha-russa

Em uma das primeiras cenas deHomem-Aranha, o herói Peter Parker (Tobey Maguire) avisa aoespectador que "a história da minha vida não é para os fracosou sem coragem". É a senha para que o espectador saiba que temuma montanha-russa cinematográfica pela frente. Um verdadeiromergulho em um gibi, com tudo o que isso implica - violência,delírio, imaginação, clichês e alguma crueldade, marca dodiretor Sam Raimi. Empurrado por maravilhosos e cascateiros vôos rasantessobre outdoors e yellow cabs, os táxis amarelos de Nova York,Homem-Aranha é a mais bem-sucedida adaptação das HQs para ocinema na temporada. É uma diversão imperdível. Nivela-se emqualidade e cuidados técnicos com X-Men, que era impecável. Raimi não poupa esforços para tornar críveis aquelascenas que só tínhamos visto no papel amarelado dos gibis. Comoquando o Duende Verde joga o amor secreto do Aranha, Mary JaneWatson (interpretada por Kirsten Dunst), de cima da sacada de umedifício em Times Square, enquanto a diva da nova soul music,Macy Gray, canta de graça numa parada de rua - só nas históriasem quadrinhos mesmo. O Homem-Aranha não foi o primeiro herói dramático dasHQs, dividido entre o zelo familiar e a responsabilidade desalvar o mundo diariamente. O Capitão América, o Demolidor, opróprio Super-Homem e Batman sempre foram candidatos sérios auma temporada eterna no analista. Mas o Homem-Aranha foi o primeiro teen urbanóide daturma, um estudante sem recursos criado por tios pobres, um nerdexcelente em ciências e péssimo nas matérias do coração. Picadopor uma aranha radioativa, ganhou superpoderes e a atenção dosteenagers. Zanzar por cima de prédios, que para alguns heróis émera rotina, para ele é "cool", algo como andar de skate nasparedes do Edifício Copan. Há algumas diferenças do filme em relação ao gibi, quecondensa aproximadamente dez anos de ação do herói nas bancas.Mas elas são irrelevantes. O Homem-Aranha, por exemplo, não temo poder de jogar teias por buracos no pulso. No gibi, aquilo éum mecanismo que ele inventa em laboratório. Os alter egos dosvilões, Harry Osbourne e seu pai, Norman, o Duende Verde, têmcabelos encaracolados nas histórias em quadrinhos. O diretor Raimi e o roteirista David Koepp forçam a mãoem alguns aspectos da história, mas não traem o autor, Stan Lee- que, por sinal, é produtor e consultor do filme. O que chama aatenção (além do ritmo alucinante) é mesmo sua crueldade. Elefaz o Duende Verde atacar a velhota Tia May justamente nomomento em que ela está rezando um Pai-Nosso. E a obriga aconcluir a oração antes de molestá-la."Mas livrai-nos do Mal..." O jogo dual entre Bem e Mal,omissão e opressão, é um elemento que Sam Raimi explora na mentedo espectador. Mary Jane é atacada por um grupo de homens comfacas num beco sujo. O Tio Ben é assassinado na rua, por umreles batedor de carteiras. O Duende Verde joga um bonde cheiode crianças de cima da Queensborough Bridge, uma das pontes deManhattan. Aqui começam as referências ao atentado a Nova York, umaonipresença no filme - que limou cenas realizadas nas torresWorld Trade Center. Quando o Duende está prestes a atacar umindefeso Aranha, recebe um objeto na cabeça. "Você mexe com umde nós, mexe com todos nós", diz um irado nova-iorquino de cimada ponte. E chove tralha em cima do vilão, um dos muitos que vãopagar o pato pela Al Qaeda.

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