HFPA/AFP
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Hollywood talvez não queira salvar o Globo de Ouro

Há muito trombeteado como o primo menos solene do Oscar, o prêmio agora está correndo para limpar sua barra depois que a NBC anunciou que não irá transmitir o evento em 2022

Kyle Buchanan, The New York Times

12 de maio de 2021 | 17h00

A festa do Globo de Ouro acabou, pelo menos por enquanto.

Há muito trombeteado como o primo menos solene do Oscar, o Globo agora está correndo para limpar sua barra depois que a NBC anunciou que não irá transmitir o evento em 2022 por causa de uma série de controvérsias envolvendo a Hollywood Foreign Press Association (HFPA), o grupo de votação por trás a cerimônia.

Listar todas essas controvérsias pode ser tão demorado quanto a cerimônia em si, mas aqui vai uma amostra considerável: o Los Angeles Times e The New York Times recentemente publicaram denúncias sobre o duplo negócio do grupo, uma matéria subsequente do Los Angeles Times revelou que o grupo não tinha membros negros, um conjunto tardio e relutante de reformas propostas pelo grupo não satisfez a Time’s Up e levou estúdios como Netflix, Amazon e Warner Bros. a emitir declarações que na verdade representavam um boicote efetivo.

Enquanto esse escrutínio se intensificava, os membros da insular associação de 86 pessoas continuaram cometendo novas gafes que chegaram às manchetes. Um deles confundiu Daniel Kaluuya com outro ator negro, Leslie Odom Jr., poucos minutos após a vitória de Kaluuya no Oscar. Um ex-presidente da Hollywood Foreign Press foi expulso do grupo em abril após encaminhar aos membros um artigo de direita que chamava o Black Lives Matter de “movimento de ódio”.



Esse tipo de comportamento insensível foi tolerado por Hollywood ao longo de muitas décadas porque o Globo de Ouro era a parada mais importante no caminho até o Oscar: se você estivesse disposto a trocar ideias e tirar selfies com eleitores excêntricos (bem como virar a cara para seus comportamentos mais questionáveis), então o grupo podia proporcionar a você o ímpeto necessário para percorrer todo o caminho da temporada de premiações.

Mas com o prêmio agora nas cordas, as estrelas começaram a questionar publicamente a integridade dos membros: Scarlett Johansson disse em comunicado que ela tinha parado de participar das coletivas de imprensa do grupo depois de “enfrentar questões sexistas e comentários de certos membros da HFPA que beiravam o assédio sexual”. Já Tom Cruise, queridinho do Globo, devolveu seus três troféus numa reprimenda digna de nota.

Será que o prêmio ainda conseguirá voltar depois de seu brilho dourado ter ficado tão manchado? Ou será que Hollywood vai concluir que salvar o Globo de Ouro pode ser um trabalho que não vale a pena?

Horas depois de a NBC cancelar a transmissão de 2022, o grupo divulgou um cronograma detalhado para as mudanças propostas, que incluem a incorporação de muitos novos membros nos próximos meses. Ainda assim, mesmo se o grupo dobrar seu número de membros e admitir mais jornalistas negros, permanece a questão do que fazer com os membros de longa data que por anos se entregaram às práticas mais criticadas.

Ao contrário do Oscar, que é votado por vários milhares dos mais talentosos artistas e técnicos de Hollywood, o Globo de Ouro é decidido por um pequeno grupo de jornalistas estrangeiros com pouco ou nenhum destaque fora da Hollywood Foreign Press Association, muitos dos quais recebem remunerações significativas do grupo.

Trata-se de uma seleção improvável de pessoas para se conferir prestígio, e o Globo de Ouro pode ter que reinventar totalmente seu corpo de votação se quiser reconquistar as estrelas e os estúdios já revoltados. Por que atores como Johansson ou Kaluuya continuariam participando das atividades da organização se os jornalistas que os ofenderam ainda mantêm sua influência dentro do grupo?

Enquanto isso, é possível que outra cerimônia de premiação passe para o início de janeiro para efetivamente ocupar o lugar do Globo no calendário de premiações do ano que vem. O Screen Actors Guild Awards e o Critics Choice Awards já foram televisionados e atraem grandes estrelas, embora nenhum tenha sido capaz de alcançar o tradicional sucesso de audiência do Globo de Ouro.

Ainda assim, se qualquer uma das premiações for adequadamente ampliada e movida para a primeira semana de janeiro, poderá pelo menos tirar proveito de um ecossistema de festas, eventos e anúncios que giram em torno de uma grande cerimônia de premiação que vai ao ar na primeira semana do ano. E se o evento recém-realocado conseguir melhores números de visualização do que a baixa pandêmica do Globo de Ouro deste ano, Hollywood talvez não tenha pressa em devolver a importância ao Globo.

É o que acontece com os prêmios: esses troféus são tão importantes quanto os destinatários acreditam que sejam, e agora que a ilusão do Globo de Ouro foi destruída, as estrelas talvez tenham dificuldade de voltar a suspender sua descrença. Será que a maior afronta ao Globo de Ouro acontecerá quando Hollywood se afastar totalmente do evento?


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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