Hollywood se rende a John Woo

Desde que Bruce Lee destruiu seu implacável inimigo de garra de aço em Operação Dragão, o cinema de Hong Kong viveu dos seus clones. Estava perto da exaustão, quando John Woo, em Alvo Duplo, de 1986, teve a idéia brilhante de misturar o filme de artes marciais com o filme de gângster à americana. Foi seu primeiro degrau na escada que hoje o leva a estrear com muito sucesso um filme de alto orçamento em Hollywood, Windtalkers (Os que falam ao vento), seu sexto título americano. Será exibido aqui como Códigos de Guerra, a partir de 7 de setembro.Woo é sinônimo de ação. Virou cult nos EUA e Canadá com Alvo Duplo, que fez sensação ao ser exibido em 1987, num festival de Toronto. Glória maior ainda: seus filmes passaram a ser imitados pelos americanos. Até que fez seu primeiro "made in America", ainda uma produção independente modesta, de orçamento baixo, um veículo para Jean-Claude Van Damme, O Alvo, de 1993. O êxito levou John Woo aos grandes estúdios e orçamentos como em A Outra Face, com Nicolas Cage, e Missão Impossível 2, com Tom Cruise.Desde Sergio Leone, Hollywood não se rende tanto a um mestre da ação estrangeiro. Marcas registradas de Woo como a amplificação da violência pela câmara lenta, o monte de pedaços de madeira e vidro estilhaçado enchendo a tela, o herói impossivelmente impassível no meio da batalha aos saltos e cambalhotas com duas armas nas mãos etc., estão em todos os filmes de ação, de Matrix a Homem-Aranha.Windtalkers, que estreou na ultima sexta-feira, é a história de um índio da tribo dos navajo (Adam Beach), na Segunda Guerra Mundial, que se alista no Exército como "falador de código", usando sua língua nativa para transmitir mensagens que o inimigo não sabe interpretar. Nicolas Cage é o sargento destacado para protegê-lo - ou matá-lo, em caso de perigo de captura. Surge uma amizade fraterna, mas potencialmente perigosa, no que pode ser o anúncio de um John Woo mais maduro e naturalista.Woo tem 56 anos e é um homem de muitas culturas. Seu próprio nome é uma versão em inglês do seu nome chinês, Yusen Wu. Seus títulos misturam filmes de gângster com as histórias chinesas de espadas - que foram atualizadas para armas de fogo. Você quer yin e yang? Em The Killer - o Matador, um policial acaba admirando o assassino Chow Yun Fat) que ele tem de capturar; em A Outra Face, John Travolta, o agente do FBI, e Nicolas Cage, o terrorista, trocam caras e identidades.Segundo Woo disse ao New York Times: "Meu avô era um dono de terras na China, numa província chamada Guangxi. Tinha uma fazenda, muitas casas, e meu pai era o caçula de nove filhos. Bem diferente do resto da família. Era um intelectual, um erudito que gostava de literatura e pintura. Saiu de casa aos 16 anos, tornou-se professor. Na Segunda Guerra, ele entrou para as forças nacionalistas de Chiang Kai-shek".Enquanto isso, Woo teve uma doença grave, uma infecção nas costas. Depois que os comunistas dominaram a China, a família de Woo foi para Hong Kong, onde morava numa favela de imigrantes; num incêndio, todos perderam o pouco que tinham, inclusive documentos. O pai de Woo ficou tuberculoso, a mãe passou a costurar e a vender comida na rua para sobreviver. Ela também era fã de cinema. Logo Woo apaixonou-se por O Mágico de Oz, Cantando na Chuva e filmes de Fred Astaire.Talvez a coreografia fantástica das lutas nos seus filmes venha daí, com sua mistura de cor, ritmo e movimento. Isso, mais a violência que havia nas ruas de Hong Kong, pode ser a matriz do seu estilo. Graças à ajuda de uma família americana, John Woo pode cursar uma escola da igreja luterana. Aí, ele queria ser pastor, além de sonhar com filmes. Gostava de Godard e Truffaut.Também do cineasta chinês Chang Cheh. Um amigo de Wong era roteirista, apresentou o fã ao diretor e logo ele estava como assistente de Chang Cheh. Seu primeiro filme como autor chamava-se algo como Adeus, Amigo e Woo era tão pobre na época que dormia num escritório do amigo que era co-diretor. Mas era feliz, segundo contou. Como curiosidade, creditado como "coreógrafo de ação", aparece um certo Jackie Chan.Woo mora em Los Angeles com a mulher e três filhos. Na tela, ele faz com que o público tenha justificado o preço do ingresso. É o que acontece em Windtalkers. No filme há violência, a preocupação com lealdade e traição tão característica dos seus filmes, mas a crítica americana destacou o fato dele estar menos ansioso para impressionar por proezas técnicas e mais à vontade para expressar sutileza.A violência estilizada está reduzida, o que dá ao filme uma verossimilhança que muitos dos filmes anteriores de Woo não tiveram. Ele parece, então, estar buscando um novo nível de refinamento, que permite esperar boas novidades deste inesperado mestre das surpresas e do suspense.

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