Kevork Djansezian/ Reuters
Kevork Djansezian/ Reuters

Hollywood se autocensura para entrar no mercado chinês, denuncia relatório

Roteiristas, produtores e diretores fazem alterações de todos os tipos na esperança de acessar 1,4 bilhão de consumidores

Redação, AFP

06 de agosto de 2020 | 07h56

Roteiros alterados e cenas deletadas: em um relatório divulgado nesta quarta-feira, 5, pela organização Pen America, Hollywood é acusada de autocensura para permitir que seus filmes cheguem ao gigantesco mercado chinês. 

Roteiristas, produtores e diretores fazem alterações de todos os tipos na esperança de acessar 1,4 bilhão de consumidores da China, segundo a Pen America, uma associação americana voltada para a defesa da liberdade de expressão. 

Segundo a associação essa autocensura vai da remoção da bandeira de Taiwan na jaqueta de Tom Cruise em Top Gun: Maverick até a exclusão da China como fonte de um vírus zumbi no filme Guerra Mundial Z (World War Z), lançado em 2013. 

Trata-se também de evitar tópicos sensíveis, como Tibete, Taiwan, Hong Kong ou Xinjiang, e não mostrar personagens pertencentes à comunidade LGBTQ. 

"Apaziguar o governo chinês e seus censores se tornou uma maneira de fazer negócios como qualquer outro", diz o relatório. 

Pequim possui um dos mais rígidos sistemas de censura do mundo no departamento de propaganda do Partido Comunista Chinês, que decide se um filme estrangeiro pode acessar o mercado local de filmes, que em breve será o maior do mundo. 

Os sucessos de bilheteria americanos como Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame) ou Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home) geraram mais receita na China do que nos Estados Unidos. 

"O Partido Comunista Chinês realmente exerce uma enorme influência sobre a lucratividade ou não de um filme de Hollywood, e os executivos do estúdio sabem disso", diz a Pen America. 

Esta é a razão pela qual um ex-diretor da Disney, Michael Eisner, pediu desculpas a Pequim após a proibição em seu território do filme Kundun, de Martin Scorsese, lançado em 1997, que trata da vida de Dalai Lama, líder espiritual do Tibete no exílio. 

Em Hollywood, algumas pessoas "se apropriam voluntariamente dessas restrições sem serem solicitadas" e outras convidam censores chineses para os sets, denuncia o relatório. 

"Se for apresentado um projeto que é abertamente crítico", existe o receio de que "você ou sua empresa sejam abertamente colocados em uma lista negra", disse um produtor. 

"A abordagem de Hollywood de obedecer aos ditames chineses cria um padrão para o resto do mundo", alerta Pen America, que lamenta que esse "novo normal" esteja se consolidando em países orgulhosos de sua liberdade de expressão.

 

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