Hollywood filma em ritmo de MPB

No dia 19 de junho, a banda Stone Temple Pilots lança o seu tão esperado álbum (o quinto da carreira), que marca a volta do vocalista Scott Weiland, agora sem problemas com as drogas. Segundo Dean DeLeo, o guitarrista dos Pilots, o álbum Sangri-La Dee Da explora sons mais acústicos e duas das faixas compostas por Weiland são fortemente influenciadas por Tom Jobim, de quem são fãs declarados. Além de quatro Grammys consecutivos na categoria de world music e do estouro de Bebel Gilberto na parada, a MPB continua a encantar os gringos. Mas agora com mais enfâse. Hoje é praxe ouvir em lojas chiques do SoHo Gilberto Gil interpretando sucessos de Luís Gonzaga (da trilha sonora do filme Eu Tu Eles) e Joyce cantando o hit Bananeira (João Donato/Gil). Rádios universitárias que impulsionaram Os Mutantes e Caetano Veloso em suas ondas, agora têm em seu playlist o mais novo herdeiro da MPB, Moreno Veloso (filho de Caetano e Dedé Veloso), que recentemente encerrou sua primeira turnê americana. Dado o crescente interesse pelos sons brasileiros nos EUA, nada mais oportuno que eles fossem também explorados por Hollywood. Atualmente, cinco filmes (três em cartaz e dois a serem lançados em breve) trazem canções da MPB em suas trilhas sonoras. E, como se trata de cinema americano, os resultados são variados, do ofensivo ao engraçado. Sedução - O maior número de canções (cinco) são da trilha de Heartbreakers, comédia com Sigourney Weaver e Jennifer Love Hewitt, respectivamente nos papéis de mãe e filha unidas em aplicar o golpe do baú num velho milionário (Gene Hackman) da Flórida. Numa cena de sedução num bar, e que marca a briga de poder entre as duas personagens, a música de fundo é Insensatez (Jobim/Vinícius de Morais), em gravação instrumental do próprio maestro e a orquestra de Claus Ogerman. "Sou grande fã de Jobim, mas inicialmente nem pensava em usar clássicos da bossa nova no meu filme", explica o diretor de Heartbreakers, David Mirkin, em entrevista ao Estado. "Quando fui à Flórida fazer pesquisas de locações, acreditava que estava indo também ao encontro de vasta opção de sons cubanos, mas, o que achei, na verdade, foi uma enormidade de música brasileira nas rádios. Quando estava dirigindo pela costa da Flórida, sintonizei uma rádio que tocava música brasileira, e achei o som perfeito para explorar a sensualidade proposta no filme." Sexualidade sutil - Segundo Mirkin, há uma grande diferença entre "os sentimentos cantados" pelos cubanos e os brasileiros. "Música cubana tem uma sexualidade óbvia e exarcebada", diz. "Já a brasileira, em especial a de Jobim, é mais sutil; a sensualidade vem de direção oposta." De volta a Los Angeles, Mirkin pediu que seu produtor musical vasculhasse novos sons da MPB, mas o resultado dessa pesquisa não convenceu o diretor. "Nada de contemporâneo me fascinou, apesar da língua portuguesa soar como uma das mais românticas do mundo", explica o cineasta. "O que não saía mesmo de minha cabeça era o bom e velho Jobim." A trilha de Heatbreakers inclui ainda Meditação (Jobim/Newton Mendonça), na voz de João Gilberto; Água de Beber (Jobim/Morais), interpretada por Astrud Gilberto; The Waters of March (Águas de Março - Jobim), em gravação da americana Susanna McCorkle; e Sarah Vaughn cantando Quiet Nights, versão de Eugene Less para Corcovado (Jobim). Na trilha também está o cantor americano Beck com a canção Tropicalia, inspirada pelos Mutantes. "Não foi fácil conseguir os direitos dessas músicas", explica Mirkin. "Por isso, tenho que dar grande crédito a sra. Jobim, que nos ajudou bastante nessa empreitada." A versão de Caetano para Nature Boy (Eden Ahbez) embala uma cena apimentada entre o 007 Pierce Brosnan e o australiano Geoffrey Rush em O Alfaiate do Panamá, thriller baseado em livro de John Le Carré e dirigido pelo cineasta inglês John Boorman. Nela, a dupla invade uma boate gay, único lugar onde podem trocar um segredo político, e dançam ao som da gravação ao vivo que Caetano fez em 84 no seu álbum Totalmente Demais. Mas a faixa não foi incluída na trilha sonora do filme que estréia dia 29 de junho em São Paulo. O Alfaiate do Panamá é o terceiro filme recente em que a canção composta pelo recluso Ahbez e imortalizada na voz de Nat King Cole, na década de 40, aparece. A versão de Nature Boy feita por Miles Davis está na trilha de O Talentoso Ripley e, em breve, aparecerá na do musical Moulin Rouge, com Nicole Kidman, em gravação inédita de David Bowie. Lançado na semana passada no circuito de arte de Nova York e Los Angeles, The Center of the World, novo filme de Wayne Wang (de Cortina de Fumaça), tem trilha moderninha que inclui canções de Bebel Gilberto e do arranjador iugoslavo Suba. Escrito por Wang, mais o novelista Paul Auster e sua mulher, Siri Hustvedt (o casal se desentendeu com Wang durante as filmagens e o roteiro é assinado pelo nome fictício de Ellen Benjamin), é uma espécie de soft-pornô existencialista envolvendo o romance de um engenheiro de computadores e uma stripper de Las Vegas. A canção Alguém (Bebel/Suba e Béco Dranoff), do álbum Tanto Tempo, é executada numa cena de restaurante. Suba, que produziu Tanto Tempo para Bebel antes de morrer, vitimado por um incêndio em seu apartamento em São Paulo, há dois anos, tem sua faixa Tantos Desejos (Suba/Taciana) numa cena de strip-tease. Cannes - The Center of the World será exibido hors concours dentro do próximo Festival de Cannes. Também em Cannes, mas dentro da competição oficial, está Shrek, o primeiro desenho animado a participar do maior festival do mundo desde Peter Pan, da Disney, na década de 50. Produzido pelo DreamWorks, Shrek, com vozes de Mike Myers, Eddie Murphy, Cameron Diaz e John Lithgow, é uma sátira aos contos de fadas e uma grande estocada na Disney, empresa rival de onde Jeffrey Katzenberg, um dos três chairmen da DreamWorks, saiu em 1995 depois de uma disputa com o chefão Michael Eisner. Meditação (Jobim/Newton Mendonça) é a canção de fundo numa seqüência em que o herói da trama, o ogro que dá título ao filme, entra num castelo que satiriza os parques temáticos da Disney. "Na verdade, a idéia de usar uma canção de bossa nova foi de nosso desenhista que vendeu a seqüência, já com a música incluída, numa das reuniões de ´brainstorm´ do estúdio", explica Vicky Jenson, co-diretora do desenho. "A cena pedia uma elevator music (música de elevador) e que melhor canção que não Meditation?", pergunta Andrew Johnson, o outro diretor. Shrek estréia no dia 22 de junho em todo o Brasil. Documentário espanhol - Com estréia marcada para junho nos EUA, o documentário Calle 54, do espanhol Fernando Trueba, é uma homenagem ao jazz latino e reúne músicos como Paquito D´Rivera, Chucho Valdés, Tito Puente, Gato Barbieri e Cachao, entre outros. A representante brasileira é a pianista paulista Eliane Elias, que interpreta a faixa Samba Triste (Baden Powell/Billy Blanco). Para marcar o lançamento do filme, distribuído pela Miramax, Eliane mais Barbieri, D´Rivera e Jerry Gonzalez, entre outros, participam da noite Calle 54, no dia 24 de junho, dentro do JVC Jazz Festival, em Nova York. O cineasta Bruno Barreto, que está montando a comédia A View from the Top, estrelada por Gwyneth Paltrow, estuda a possibilidade de ter uma canção de Bebel em sua trilha. E os produtores do seriado da HBO Sexo e a Cidade estão fechando com o grupo brasileiro radicado na Inglaterra Da Lata para aparecer na terceira temporada da série, que começa no fim do mês nos EUA.

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