Hollywood encontra a mulher ideal

O cinema tem ameaçado o mundo com um futuro em que os filmes serão feitos sem atores, apenas digitalmente. As criações eletrônicas parecem, agem e soam como gente, mas têm tanta vida quanto um monitor. Final Fantasy, por mais incrível que fosse em técnica, tinha essa barreira intransponível, o desenho Waking Life também. Simone, filme de Andrew Niccol, pega a deixa e dá uma lição de sátira às manias de Hollywood de manipulação da fama e um alerta sobre os perigos da tecnologia dominar a arte.Simone vai estrear aqui dia 6 de outubro e está em cartaz nos EUA desde sexta-feira. É uma estranha mistura de Frankenstein com Pigmalião, contando como um diretor, chamado Viktor (como o cientista atrevido do primeiro) Taransky, cria uma mulher ideal segundo seus parâmetros para embasbacar o mundo.Taransky (Al Pacino) é um cineasta vagamente parecido com John Cassavetes, empenhado num cinema pessoal e cabeça, que tem um desastre nas mãos quando sua estrela temperamental (uma ponta de Winona Ryder) abandona as filmagens devido a uma discussão sobre o tamanho de seu trailer-camarim. A ex-mulher (Catherine Keener) dele quer, ainda por cima, engavetar o projeto. Ela, incidentalmente, é a manda-chuva do estúdio.O diretor é todo ouvidos quando um cibermaníaco (Elias Koteas) oferece uma solução ousada: "uma combinação de Jane Fonda, Grace Kelly, Audrey Hepburn e Sophia Loren" criada em computador, chamada Simone, na verdade a modelo canadense Rachel Roberts, com um toque digital de não-humanidade. Uma piscadinha de olho: é uma palavra que vem de parte de "Simulation One", nome do programa. Outra piscadinha: nove meses depois - nove! - Viktor aparece com um filme feitinho às escondidas, que vira um enorme sucesso de bilheteria, aparentemente o único de sua vida, e Simone se torna uma sensação mundial, inclusive sendo uma cantora que põe Celine Dion no bolso sem grande esforço. Mas, como todo remédio, Simone tem seus efeitos colaterais indesejáveis.O mundo se apaixona por Simone, mas cada minuto a mais de fama da sua criação, mais problemas para Viktor. Ele tem de responder a questão de como vender adequadamente uma fraude que só existe no software. O filme reage com humor enquanto conta como ele enrola a imprensa, o estúdio e até os co-astros, com truques muito elaborados. Todo mundo compra a afirmação de que Simone é vítima de agorafobia, não podendo suportar a companhia de outras pessoas, com medo mórbido de multidões, alturas e micróbios. "Isso é terrível, até Greta Garbo estaria no circuito dos talk-shows se estivesse viva hoje", gritam os chefões de estúdio. Viktor espalha o rosto de Simone por toda parte.Ela se torna a primeira estrela de cinema animatrônica, mas Viktor se defronta com outra questão: o que fazer quando alguém ganha dois Oscars no mesmo ano e é preciso ir recebê-los no palco? Viktor descobre, então, que a mesma tecnologia que fez de Simone uma celebridade pode detoná-la.Antes de imitar o outro Viktor, o criador do monstro de Frankenstein, o cineasta vê horrorizado que sua criatura faz propaganda de cigarros, vai parar na capa da revista Time. Ele a torna uma bêbada, depois decide matá-la. Desesperado, Viktor mata a garota cibernética, jogando todo o software no mar da Califórnia, daí se vê acusado de seqüestro e morte da modelo. "Já esfaqueei pessoas, arranhei com minhas garras e dormi sei lá onde para chegar onde estou, mas nem eu conseguiria substituir Simone", diz a personagem interpretada por Catherine Keener.Quando Viktor é levado algemado pela polícia, ele diz: "Dez anos de fracasso abjeto na indústria cinematográfica constituem um apelo por insanidade em qualquer tribunal." Simone é , nesse instante, uma farsa em que cada cena cínica tem um fundo de verdade, como toda farsa deve ter, claro.Por um lado, o filme investe contra o absurdo de uma indústria cinematográfica dominada pelas exigências insanas das estrelas e astros. Por que devem os diretores suportar os faniquitos de primas-donas quando elas podem ser substituídas por imagens tipo hologramas? Mesmo que sejam nada mais do que mentiras.

Agencia Estado,

26 de agosto de 2002 | 11h12

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