Hollywood descobre Seu Jorge

Cinecittá, Los Angeles, Festival de Veneza: eis a rota do músico e ator, que já viveu como sem-teto nas ruas do Rio, ficou famoso com Cidade de Deus e agora atua e faz a trilha do novo filme de Wes Anderson. A idéia é terminar as filmagens a tempo de passar o carnaval no Rio, diz Seu Jorge. Ele falava ao Estado por telefone de Roma, onde filmava, na Cinecittà, o longa-metragem The Life Aquatic, de Anderson (o diretor de Os Excêntricos Tenenbaums), uma produção da Disney. No filme, com estréia prevista para outubro nos Estados Unidos (antes, passa no Festival de Veneza), Seu Jorge contracena com Bill Murray, Anjelica Huston, William Dafoe, Jeff Goldblum, Owen Wilson e Cate Blanchett.Como diria Jorge Benjor, Seu Jorge não só sentou praça na cavalaria, como também fincou bandeira em Hollywood. E isso tudo vestido apenas com as roupas e as armas de Jorge. "Eu estava em casa, o telefone tocou e minha mulher atendeu. Era o diretor, o Anderson. Ele tinha visto Cidade de Deus (no qual Seu Jorge faz o papel de Mané Galinha), me convidou e aqui estou eu", conta. Em The Life Aquatic, Seu Jorge é Dos Santos, um marinheiro brasileiro a bordo de um navio ao estilo do Jacques Cousteau, capitaneado por um idealista submarino (Bill Murray). O personagem fala inglês, mas não muito, adverte Seu Jorge. O negócio de Dos Santos, codinome Pelé, é tocar um violão e animar a vida marítima. Mas não esperem que Seu Jorge toque o samba-rock que caracterizou o seu primeiro disco, Samba Esporte Fino. Seu Jorge mergulha nos sons da Swingin´ London, tocando um punhado de canções de David Bowie, da fase Ziggy Stardust. Depois de concluir as filmagens, Seu Jorge vai gravar em Los Angeles a trilha de Life Aquatic, com suas versões.Renascimento - Sem medo nenhum, o "número 1 direito" Seu Jorge foi para Roma com a mulher e a filha Flor de Maria, de 1 ano. Sua história é uma saga de renascimento como poucas. Seu Jorge é o codinome de Jorge Mário da Silva, de 33 anos, ator temporão que participou até agora de mais de dez filmes. Mas, entre 1990 e 1997, ele esteve praticamente fora de combate. Vivia nas ruas do Rio de Janeiro, como um sem-teto. "Não é lenda. Morei mesmo na rua. Como é a rua? É aquilo que você conhece ali. Eu andava sozinho. Não fiz relacionamentos, não tive amigos. Na rua, você não tem documento, não toma banho, não tem namorada, não tem mulher. Eram só eu e o violão", lembra, sem demonstrar nenhum abalo emocional com a revisão. Em 1997, foi parar no grupo de teatro Tá na Rua, de Amir Haddad. Dali, foi "recolhido", por assim dizer, por um grupo de admiradores de sua obra e convidado para integrar um grupo que fez furor durante algum tempo nos bares da Lapa: o Farofa Carioca. O grupo cresceu que nem massa de fermento e acabou sendo escalado para o Free Jazz Festival, em 1998. Durou pouco, mas o saldo foi bom, segundo o cantor.Sozinho de novo, o cantor iniciou o trabalho do seu primeiro disco por uma gravadora. O resultado, Samba Esporte Fino, era ambicioso. "Tinha muita coisa, metais e tudo. Hoje está fora das lojas. Saiu da gravadora e está indo para o meu nome. Sou um artista independente e gosto de ser assim, mas as coisas também ficam um pouco mais demoradas." O novo disco, Cru, já está terminado. É um lance completamente diferente do primeiro álbum, diz o músico. "É violão, voz e percussão. Não tem elementos eletrônicos e, quando tem um baixo, eu é que toquei", avisa. Cru foi gravado no Jardim Magnético, no Rio, e Seu Jorge tem planos de fazer uma pequena turnê de lançamento. "Seriam shows para 60, 70 pessoas, não mais que isso. Os caras querem ouvir algo do Brasil que seja mais acústico, menos produzido. O disco é muito simples, tem uma capacidade de emocionar pela simplicidade, de interagir num plano mais suave, nada muito pesado. É para ser tocado baixinho, para chegar ao ouvido das pessoas."Além de sua boa reputação na terrinha (participa de discos os mais variados, do compadre Marcelo D2 ao novo de Celso Viáfora, e também fez shows com Paralamas e o Planet Hemp), Seu Jorge está definitivamente globalizado. Em Paris, onde é persona gratíssima, virou uma espécie de artista-residente do bar Favela Chic, na République, um reduto dos brasileiros na capital francesa. Por enquanto, Seu Jorge vive apenas para o novo filme, por meio do qual ingressa num fechado time de celebridades do show biz. Ele diz que está gostando da experiência. "O Bill (Murray) é fantástico, um ator de primeira. E aqui tudo funciona, as coisas têm muita qualidade. É interessante participar disso, de um cinema mais objetivo, mais organizado", festeja. Apesar de estar por cima da carne-seca, no entanto, não se tornou um mascarado. Aproveita a entrevista para mandar abraços para todos os amigos, avisando que logo logo baixa por aqui. Estrada ou mesa de bar, para ele, é tudo parte da sua casa. "Eu apenas deixo a vida me levar, como canta o Zeca Pagodinho."

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