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'Hoje', de Tata Amaral, abre a 7ª Mostra Cinema e Direitos Humanos

Diretora falou ao 'Estado' sobre o longa inédito que integra o evento que acontece nas 27 capitais brasileiras a partir desta quinta-feira, 22

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2012 | 21h54

O longa-metragem Hoje, de Tata Amaral, abre a 7.ª Mostra Cinema e Direitos Humanos, no Cinesesc, nesta quinta-feira, 22, às 20h30. O filme venceu o Festival de Brasília de 2011 e deu à sua intérprete, Denise Fraga, o troféu Candango de melhor atriz. Esse belo trabalho remonta à memória da ditadura, e mostra como Denise Fraga, tão à vontade na comédia, é atriz dramática de primeira linha, o que já sabia quem a viu no palco interpretando Brecht. 

A história é baseada no romance Prova Contrária, de Fernando Bonassi, e narra a chegada de uma mulher, Vera (Denise Fraga), ao seu novo apartamento. Imóvel adquirido com dinheiro da indenização recebida pelo desaparecimento do marido (o uruguaio Cesar Troncoso) nos anos de chumbo. Para deixar a posição do luto paralisante, Vera precisa exorcizar seus fantasmas, da mesma forma que um país necessita conhecer sua história, por dura que seja. A seguir, a entrevista com Tata Amaral. 

Como você chegou a esse projeto?

Uma parte do livro me tocou em particular, quando fala em suicídio. A personagem diz que sentia tanta falta dele que poderia se matar. E, nesse ponto, o livro me agarrou. Não por acaso. Eu perdi o pai da minha filha desse jeito. Tinha 19 anos. O livro era uma plataforma para falar da ausência. Como você convive com a ausência de uma pessoa querida? A outra coisa é que a estrutura do livro batia com a pesquisa sobre relato que eu estava fazendo na época. Vi que a adaptação poderia seguir essa linha de uma narrativa não linear. 

Além desse lado pessoal, há também o período retratado. 

Sim, sem dúvida. O interesse em lembrar de um passado que todos nós queremos esquecer. Só que, para esquecer, é preciso lembrar dele, paradoxalmente. 

É curiosa essa dificuldade que nós, brasileiros, temos em remexer no nosso passado. 

Para mim, acabou sendo uma espécie de trilogia. Fiz o Rei do Carimã, sobre um episódio da vida do meu pai do qual ninguém falava. Ao mesmo tempo, fazia Trago Comigo, a série para a TV Cultura sobre a militância política. Nele, eu misturei ficção e realidade e entrevistei vários militantes, alguns deles hoje engajados na Comissão de Justiça e Verdade. Eu não conheço um único torturador que tenha ficado um dia preso por seus crimes. Em Trago Comigo, tive de apagar os nomes dos torturadores, porque senão eu seria processada. 

Você acha que faz mais sentido aparecer um filme como este no momento em que há uma presidente que também foi militante de esquerda e torturada? 

Faz todo o sentido. Mas eu acho que para exorcizar esse período é preciso trazer à luz o nome de quem torturou. Não por revanchismo, mas porque de outro jeito ficamos na abstração. Falamos em tortura, mas quem torturou? Qual é o nome de quem torturou? Agiu sob as ordens de quem? Só assim podemos passar o passado a limpo e olhar para o futuro. 

PROGRAMAÇÃO

A mostra Cinema e Direitos Humanos na América Latina realiza-se nas 27 capitais brasileiras. Traz filmes inéditos do Brasil, como Hoje, de Tata Amaral, e O Dia Que Durou 21 Anos, de Camilo Tavares, e também de outros países, como o uruguaio A Demora, de Rodrigo Plá, e o equatoriano Com Meu Coração em Yambo, de Maria Fernanda Restrepo.

Nesta 7ª edição, a mostra presta homenagem ao mestre do documentário brasileiro, Eduardo Coutinho, que terá alguns dos seus filmes exibidos, como sua obra-prima Cabra Marcado para Morrer (em cópia restaurada), Santo Forte e O Fio da Memória. Neste sábado, às 15 h, na Cinemateca Brasileira, Coutinho debate seus filmes com o público.

7ª MOSTRA CINEMA E DIREITOS HUMANOS NA AMÉRICA DO SUL

Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207, tel. 3512-6111.

Cinesesc. Rua Augusta, 2.075, tel. 3087-0500.

Grátis. Até 29/11 - www.cinedireitoshumanos.org.br.

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