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Histórias reais viram mania rentável do cinema nacional

Cinebiografia surge como aposta certeira dos cineastas, enchendo salas de projeção e motivando produções

Fernanda Bambrilla, do Jornal da Tarde,

25 de maio de 2009 | 10h36

“A ficção está em decadência. É como se as histórias tivessem acabado.” Micael Langer, um dos diretores do documentário Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Eu Dei, em cartaz na cidade, aponta para o novo caminho do cinema brasileiro: a cinebiografia. Contar histórias reais na telona tem se mostrado uma aposta certeira dos cineastas, enchido as salas de exibições e motivado novas produções.

Exemplos não faltam. Com estreia marcada para junho, Jean Charles, o longa que retrata a vida do brasileiro assassinado pela polícia de Londres, em 2005, encabeça a fila das biografias filmada que estão por vir. Uma fila longa, que ainda conta com a da ex-garota de programa Bruna Surfistinha, do jogador corintiano Ronaldo, do cantor e político Frank Aguiar, da assassina Suzane Von Richthofen, da cantora Cássia Eller, de Jânio Quadros, de Lula... “É uma tendência que vem funcionando e prova que o público está mais interessado no próprio País”, diz Fábio Barreto, que finaliza Lula, o Filho do Brasil. Previsto para estrear em janeiro de 2010, o filme não terá nada de política. “A vida do Lula a partir de 1980 todo mundo já conhece e é maçante. Será uma história de um filho e uma mãe, como outras milhares, e fala de superação de perdas.”

Já Henrique Goldman, diretor de Jean Charles, usa o apelo do caso verídico para reforçar o tom de denúncia. “A ficção tem que dar provas de ser verdadeira. Já a realidade, por mais absurda, é a prova da própria existência. Todo filme, baseado ou não na realidade, é um mundo com regras próprias, em que o espectador aceita viver por um determinado tempo.” No caso da história polêmica, o diretor diz que a vida do brasileiro o cativou por ser universal. “Procuro histórias que me interessam e rezo muito para que elas possam interessar ao mundo inteiro.”

Foi a perplexidade com um crime longe do convencional que levou a produtora Ana Paula Sant’Anna a iniciar o projeto de mostrar a vida de Suzane Von Richthofen, condenada por comandar o assassinato dos próprios pais, em 2002, ao cinema. “Quando soube dessa história tão complexa, logo me ocorreu: isso daria um filme”, resume Ana, que comprou os direitos do livro O Quinto Mandamento, de Ilana Casoy (uma ‘anatomia’ do crime), e viverá ela mesma a protagonista. Mas a atriz e produtora rechaça a ideia de um thriller policial. “Quero abordar a história dessa garota e não fazer um filme sanguinolento. Suzane podia ser a filha de qualquer um.”

Quem já provou o gosto de ter uma trama verídica fazendo sucesso no cinema quer repetir a dose. Depois de atrair mais de 5 milhões de espectadores com Dois Filhos de Francisco - que conta a trajetória da dupla Zezé di Camargo & Luciano -, Breno Silveira estava decidido a fazer uma coisa bem diferente, mas não conseguiu fugir da cinebiografia. “Logo apareceram muitas histórias de empresários, jogadores de futebol, perfis interessantes... Mesmo assim, não aceitei”, lembra o diretor. Até que uma fita sobre a vida Gonzaguinha caiu em suas mãos. “Foi meio sem querer e eu me encantei.” De volta à ‘cinerrealidade’ ele admite que o filão é de fato promissor: “Quando uma história tem um pé no real, é ainda mais bonita. A história verídica cria uma relação muito forte com o público. Todo mundo se sente um pouco Francisco.”

A moda das biografias também voltou a rondar Sandra Werneck. Após Cazuza, a cineasta flerta com um projeto parecido, focando a igualmente polêmica Cássia Eller, morta em 2001. “Quero mostrar não só a vida dela como cantora, mas a vida dela além do mito.” Para Sandra, o sucesso desse tipo de filme tem uma razão simples: a curiosidade. “Brasileiro adora falar da vida dos outros, para o bem e para o mal.”

A diretora acredita que a fama do personagem não garante bilheteria. “A pessoa que ela foi antes da fama é que influi para um bom filme. Se o cara foi um grande jogador de futebol, mas não teve uma vida interessante, não rende”, cutuca. Superar Pelé Eterno é a meta do Corinthians para 2010, quando começará as negociações para o longa sobre Ronaldo.

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