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Histórias de pescador e de amor invadem Tiradentes

‘O Bagre Africano de Ataleia’ faz rica mescla de gêneros e ‘Paixão e Virtude’ se inspira em Flaubert para falar de paixão

Luiz Carlos Merten, Tiradentes - O Estado de S. Paulo

29 Janeiro 2014 | 19h05

Embora tenham sido exibidos apenas dois dos sete filmes que compõem a seleção da mostra competitiva Aurora, um cheiro de crise já se alastra no ar. Como faltam pesos pesados da seleção – como Adirley Queirós, que já venceu a mostra –, pode ser que o quadro mude, mas os filmes estão apontando na mesma direção. Muito ‘sui generis’, aliás, o título de outra seção aqui em Tiradentes, a dos filmes inclassificáveis. O primeiro longa da Aurora, o muito bom A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa, listado como documentário no catálogo, é uma ficção, diz o próprio diretor. O segundo, O Bagre Africano de Ataleia, de Aline X e Gustavo Jardim, é outro documentário ficcional, que investiga mitos no inconsciente coletivo.

Existe o homem bagre? Para o espectador que assiste ao filme, ele não só existe, pois o vemos, como se assemelha a um dos piratas do Caribe da fantasia com Johnny Depp. Para os diretores, mais que o processo de feitura do filme, o que interessa talvez seja o mergulho no imaginário mineiro por meio da caçada que compõe a narrativa. O filme decola totalmente ficcional e vira uma investigação no rumo do ‘encantado’, mas os outros fazeres do processo audiovisual estão se revelando cada vez mais árduos, como se qualquer tentativa em contrário pudesse ser rotulada de ‘concessão’, aqui em Tiradentes. Os filmes da seleção estão virando um gênero específico, é isso.

Enquanto isso, os filmes da mostra Sui Generis surpreendem. É preciso fazer uma ressalva. O repórter, erroneamente, no outro dia, confundiu o diretor Cristiano Burlan com o ator Henrique Zanoni. Quem chora em Amador é o ator, representando diretor do filme dentro do filme. Seu choro é metafórico, não é a mesma coisa que o choro do diretor Cícero Filho, captado pela câmera de Murilo Salles em Passarinho Lá de Nova Iorque. O fato não altera a admiração suscitada por Amador, mas é bom não confundir as coisas.

Ricardo Miranda também trouxe à Sui Generis Paixão e Virtude, segunda parte da trilogia que chama de ‘inquietante estranhamento’. Como o primeiro filme, Djalioh, é uma adaptação de Flaubert. Na tela, o fogo arde numa lareira e os personagens falam da paixão que os consome, mas o tom é gélido. Toda a composição do filme é pictural e teatral, como se fossem quadros teatralizados. Desde a premiação de Marat Descartes, Tiradentes, em 2014, tem celebrado a ligação entre teatro e cinema. O antinaturalismo de Paixão e Virtude era um risco que Miranda e seu elenco vencem com garbo.

Para concluir, o novo secretário do Audiovisual veio debater políticas públicas. Algumas frases de Mário Borgneth “Se somarmos o fundo setorial com a Secretaria do Audiovisual, serão R$ 70 milhões investidos em cadeias regionais” (sobre investimentos); “O circuito exibidor brasileiro tem 2.500 salas, os circuitos alternativos como o Cine Mais tem 3.000 pontos” (sobre a formação de plateias). E ele defendeu, em termos de memória, a ‘digitalização brutal’ do acervo da Cinemateca Brasileira e a ampliação da Programadora Brasil.

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