Histórias de fantasmas enriquecem trama do filme 'Los Silencios', da diretora Beatriz Seigner

Histórias de fantasmas enriquecem trama do filme 'Los Silencios', da diretora Beatriz Seigner

Ilha que fica parte do ano submersa abriga a trama de desaparecimento do longa, baseada no relato que a diretora ouviu de uma amiga; produção estreia nesta quinta, 11

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2019 | 03h00

Tudo começou com o relato de uma amiga colombiana, que contou a Beatriz Seigner como se sentira ao descobrir que o pai, que considerava morto, estava vivo. A história ficou com a diretora e roteirista. Beatriz iniciou-se no teatro, participou das oficinas Kinoforum, em São Paulo. Fez um longa com quase nada, US$ 10 mil, mas que a levou longe – Bollywood Dream circulou por festivais, abriu-lhe portas. Como mulher, como artista, é muito ligada na questão política. Interessa a ela debater o colonialismo, o neocolonialismo, o feminismo. Foi como nasceu Los Silencios, que estreia nesta quinta, 11. O filme passa-se numa região de fronteira. Ao pesquisar locações, Beatriz descobriu a ilha submersa.

Durante uma parte do ano, as águas cobrem a terra e os habitantes convivem com a inundação. Chama-se, como no filme, Isla de Fantasia, na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. No imaginário de Beatriz, a história da amiga fundiu-se com a dela, porque seu pai, quando era pequena, tinha o hábito de desaparecer, por períodos. Também foi influenciada por relatos de famílias, durante o processo de reconciliação entre as Farc e o governo da Colômbia.

“Foi como o tema do desaparecimento ganhou ressonância política, acompanhando a história da mulher que cria o casal de filhos.” O marido e outra filha talvez estejam mortos, mas os corpos nunca foram encontrados e ela tenta conseguiu asilo no Brasil. “Fui impregnada pela locação. Os habitantes da ilha acreditam em fantasmas. Acham que seus mortos circulam por ali, brincam com eles. Esse lugar perdido entre três fronteiras, entre terra e rio, tornou-se ideal para a história que transita entre realidade e imaginação.”

Como já havia feito em Bollywood Dream, Beatriz mistura ficção e documentário. “Só o pai e a mãe, interpretados por Enrique Diaz e Marleyda Soto, são profissionais. Os demais atores pertencem à comunidade, e isso ajudou a dar ao filme sua veracidade. Os habitantes realizam assembleias para decidir sobre tudo. É o máximo de documentário e ficção, em que o fantasma, ex-integrante das Farc, conta sua história. Tudo é verdadeiro no relato dele, mas o clima é fantasmagórico.” A selva, a chuva, a água, tudo aproxima Beatriz de autores como Apichatpong Weerasethakul ou Tsai Ming-liang, que também operam no registro do fantástico e do sonho.

Ela ainda amamentava quando se embrenhou na selva para filmar. Na equipe, havia outras mulheres que também eram mães. “Tanto que cito os bebês do set nos créditos. É muito um filme de mulheres, sobre mulheres. Quando me ofereciam alternativas – fotografia, direção de arte, etc. –, se havia mulheres qualificadas eu as escolhia. A sororidade é um fato. O machismo ainda é forte, entre as próprias mulheres, e é preciso mudar essa mentalidade.”

Veja trailer:

 

Mais conteúdo sobre:
Beatriz Seignercinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.