História do filme 'Meteora' expõe dilema de padre e freira

Longa é contado com simplicidade e rigor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2014 | 21h17

Tem alguma comoção com os filmes gregos nos grandes festivais, mas nada que seja inédito. No passado, Michael Cacoyannis fez história com sua trilogia de tragédias (Electra a Vingadora, As Troianas e Ifigênia) e Nicos Kondouros fez sensação com o erotismo de suas Jovens Afrodites. A barra tem pesado um pouco mais, por causa da crise, como atesta Miss Violence, de Alexandros Avranas. Por mais duro que seja o embate entre religiosidade e sexo, Spiros Stathoulopoulos busca, e alcança, um equilíbrio entre desejo e contemplação. Talvez porque, como ele disse ao repórter no Festival de Berlim, há dois anos, mesmo não sendo místico, acredita no ascetismo como norma diante da vida.

A entrevista foi feita em grego, com intérprete, mas poderia ter sido feita em espanhol ou inglês. Stathoulopoulos passou a infância na Colômbia e reside atualmente - residia, em 2012 - em Los Angeles. Foi lá que se associou ao roteirista Asimakis Pagida e ao ator Theo Alexander - um dos vampiros da série True Blood - para desenvolver o projeto que virou Meteora, seu belo filme em cartaz. Como disse - "Virei especialista em fazer filmes sem dinheiro, mas, na verdade, nunca me pareceu que existisse uma relação muito direta entre capital e arte. Senão, todos os filmes grandes, feitos com excesso de dinheiro, seriam automaticamente grandes filmes, e isso não é verdade."

Stathoulopoulos fez sensação no mundo dos festivais com um filme de baixo orçamento chamado PVC-1. "Praticamente, fui à selva com um grupo de amigos, uma câmera na mão e algumas ideias na cabeça. Não foi preciso mais." PVC-1 chamou atenção e lhe valeu algumas ofertas para dirigir novos filmes, mas ele recusou. "Sabia o que queria fazer, e era Meteora." Um mosteiro no alto de um monte. Do outro lado, um convento. O isolamento é total, mas não tanto que impeça um noviço de se sentir atraído pela jovem que vai confirmar seus votos de freira. Romeu e Julieta, com a Igreja no lugar das famílias.

Como nasceu Meteora? "Embora tenha vivido fora, a Grécia foi sempre muito presente em minha vida. Passava as férias em Kalabaca e a paisagem foi me subjugando. Em Los Angeles, fiquei amigo de Asimakis. Discutíamos muito o tipo de filme que gostaríamos de fazer. Theo se juntou a nós. Na verdade, Theo vivia dizendo ao pai que queria filmar na Grécia e foi o pai dele que me vendeu a ideia, porque tinha ficado impressionado com PVC-1. Compramos uma câmera digital Panasonic e passamos quatro meses em Kalabaca procurando desenvolver uma história e um roteiro. Theo brinca dizendo que chegamos de mãos vazias e voltamos com um filme."

Na trama desenvolvidas pelo trio, Alexander faz um monge da Igreja ortodoxa que, de cara, conhece a freira cujo convento fica no pico em frente. Ambos trocam algumas breves palavras enquanto esperam pelo transporte primitivo em cestos que carregam tudo, de pessoas a mantimentos. Passa-se cerca de uma hora de desejo reprimido até que o primeiro movimento de aproximação seja feito. Em Berlim, alguns críticos se queixaram de que Stathoulopoulos se interessa mais por símbolos do que pela narração. Não é verdade. Meteora é minimalista, mas enche os olhos do espectador com tanta beleza - desde a paisagem até os atores (Alexander e a garota que faz a freira, Tamila Koulieva).

O mosteiro data do século 9.º d.C. e é considerado a obra-prima desse tipo de arquitetura na Grécia. A oposição entre elevação espiritual e desejo físico é um tema recorrente no cinema. Não é a originalidade da história que faz a grandeza de Meteora. "Queria que a história fosse contada com simplicidade e rigor. Nossa maior preocupação foi com o silêncio e a luz, que deveriam ser, verdadeiramente, personagens. O silêncio é, como se diz, de ouro. O que os personagens dizem conta menos do que o que calam. E a luz natural deveria ter a aura que envolve essas pessoas que vivem fora do tempo. Discutimos que o filme deveria parecer atemporal, porque o tempo, no alto do morro, não tem o mesmo significado de quem vive na correria da vida moderna."

Os ícones são fundamentais na Igreja ortodoxa e Stathoulopoulos sabia que iria utilizá-los. Dada a precariedade da produção, ele pensou inicialmente em se utilizar de gravuras e mosaicos para expressar o tormento interno dos protagonistas. A entrada de produtores alemães atraídos pelo primeiro corte do filme lhe permitiu recorrer à animação, que dialoga de forma muito inteligente e criativa com a austera narração em live action. Em Berlim, muitos críticos compararam Meteora a Luz Silenciosa, do mexicano Carlos Reygadas. Só para sua informação, Stathoulopoulos respeita muito Reygadas, mas não está certo de que Luz Silenciosa seja seu melhor filme. Prefere A Batalha no Céu, que é anterior.

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